
A União das Hortaliças acaba de
confirmar a imensa capacidade de visão dos seus líderes, o que aliás é a razão
porque a União é um dos grandes motores da economia mundial, embora um tanto ou
quanto “gripado”. A mais recente e sábia deliberação versou sobre a Taxa
Diamante, uma rapace taxa aplicada a transferências bancárias elevadas ou gordos
depósitos. A taxa desgostava bastante numerosas… perdão, poderosas famílias que
se viam feridas na sua liberdade de passearem o dinheiro por onde muito bem lhes
aprouvesse, enfim, uma clara violação à liberdade individual e mais ainda, uma
discriminação face aos pobres, que esses podiam enviar as suas divisas para
onde desejassem, sem problemas. O facto dos pobres não o fazerem só demonstra o
seu extremo egoísmo, e não porque os bancos exijam plafonds de abertura de conta no estrangeiro e montantes mínimos de
movimentação de capitais muito superiores às poupanças de uma vida dos
esbanjadores pobres. Esta taxa impedia o fluxo de capitais e o desenvolvimento
da economia, em especial a dos paraísos fiscais da União das Hortaliças, e o
necessário cosmopolitismo da classe dirigente da União, sendo que aqui não nos
referimos aos dirigentes conhecidos da Capital do Tacho mas quem influencia
esses dirigentes a tomar as decisões que tomam. Tendo analisado com reverência
os requisitos das numerosas… poderosas famílias em questão, deliberou a União que
tal taxa é ilegal e nenhum país a poderá aplicar sob pena de ser severamente
multado, visto que viola a igualdade da concorrência e a liberdade de, entre
outras coisas, fugir aos impostos. Não é justo que um ricaço da República dos
Nabos possa escapar com o “seu” para, por exemplo, o Cantão dos Queijos ao
passo que um digno e suado rico da República das Batatas o não possa fazer sem
pagar primeiro a infame Taxa Diamante. Assim todos os ricos estão em pé de
igualdade e podem fugir à vontade para onde quiserem. Claro que isto coloca
problemas aos ricos que trabalham a sério, pondo suor, dinheiro e couro nas
fábricas e empresas, porque se os capitais dos colegas dão à asa, serão eles a
pagar mais impostos para acertar as contas do orçamento local. Mas esses que
não sejam burros e desatem a fugir também em vez de tentarem fazer singrar as
suas empresas na tempestade financeira actual. As terroristas vozes da
dissidência já vieram dizer que esta liberdade é só para alguns pois os pobres
não podem deslocalizar as suas poupanças para os países para onde fogem as
massas dos ricos. Mas se os pobres trabalharem muito e cumprirem com todas as
suas obrigações talvez o Divino faça um milagre… e os mate antes de saberem o
que é ter uma conta no Cantão dos Queijos. Ora como a União das Hortaliças
preza muito a sua tradição democrática, e também porque a Taxa Diamante anulada
impede os estados de arrecadarem alguns cobres, foi criada uma Taxa Farrapos, a
ser descontada directamente no ordenado dos cidadãos não ricos para evitar que
estes vão esbanjar todo o seu dinheiro em viciosa comida e bebida ou parvoeiras
como discotecas, passeios à praia ou livros. A Taxa será calculada em função
dos farrapos e remendos na roupa de domingo e de trabalho, sendo tanto maior quanto
maior for o número de remendos e/ou farrapos. Atendendo à larga quantidade de
sem-abrigo que madraçam pelas capitais da União, os estados deverão arrecadar
muito mais divisas do que com a Taxa Diamante, que era apenas de 1%. Serão também
alcançados vários benefícios colaterais, a começar pelo desenvolvimento
económico, dado que se espera uma corrida às lojas de roupa usada para evitar os
remendos, gerando assim um aumento da manufactura de candonga; os pobres
deixarão de mandriar, pois precisarão do guito para pagar a roupa nova-em-2ª
mão; também deixaram de ser maltrapilhos e malcheirosos (admitindo que mudem de
roupa 1 vez por mês para poupar na água já que agora, para a poupar, vão aos
balneários públicos ou deixaram de todo de se lavar). Tem a repórter deste
jornal que assinalar porém um estranho facto: é que desde a entrada em vigor da
Taxa Farrapos as lojas de roupa passaram a apresentar ostensivamente à entrada
uns dísticos que no passado surgiam atrás do balcão das tascas e diziam “Se
queres fiado…”
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