O Banco dos Ratinhos, sólida e
respeitável instituição que pela sua importância é uma das cabeças-de-cartaz
das empresas de rating que
actualmente dominam e desorientam a economia internacional, dando notas más por
razões que por vezes até os próprios classificadores não percebem, enquanto
boas notas são atribuídas a outros pagantes por ainda mais incompreensíveis
razões, foi ontem abalado por dois violentos escândalos. Também por acaso o foi
por duas valentes explosões e os habituais grémios dedicados a explosões e
outros atentados já vieram afirmar e jurar e mostrar em certidão que não foram os
responsáveis, pois não lhes foi encomendado qualquer estrago por parte de
empresas de urbanismo, construção e reparação de edifícios, estradas e
viadutos, nem pelas fábricas de construção de aviões, comboios e automóveis,
que são os seus usuais clientes. Tudo começou com uma empregada da limpeza que
anda a tirar um curso de electrónica e espionagem industrial por
correspondência, e que descobrindo no seu turno de limpezas uma fotocopiadora
encravada, decidiu testar os seus conhecimentos, até porque tinha um teste de
avaliação nessa mesma noite. E recuperou-a tão bem que esta começou a imprimir
todos os documentos que lhe haviam passado pelas rotativas nas últimas 60
horas. Aflita pois não sabia onde pôr tanta papelada – por causa da crise a
empresa de limpezas só lhes dá um saco por dia, elas têm de saltar para dentro
dos sacos para calcar a lixarada toda pois senão “não dão para as encomendas” –
decidiu fazer de conta que os papéis eram um romance que andava a escrever e
levou-os para casa. Assim, não ultrapassou a quota diária de sacos escuros de
50 quilos embora quase ultrapassasse um sinal vermelho com a carrinha da
empresa e por mais um bocadinho também um polícia de giro (foi uma pena não o
ter passado a ferro, comentou a colega que ia ao seu lado, pois é um malandro
que anda sempre a ver se nos ferra uma multa). É que ao ler os primeiros
parágrafos, entre atender o telefone, fazer uma ultrapassagem e virar à
esquerda, tudo ao mesmo tempo, descobriu que o gestor-mor do Banco dos Ratinhos
e um dos seus assessores tinham andado nos últimos anos muito ocupados em
actividades freelancer de renovação
criativa de assinaturas, requintado conto do vigário a clientes com muita massa
e ansiosos por terem mais e muito depressa, elaboração sofisticada de produtos
financeiros que ninguém entende como funcionam mas dão chorudas comissões a
quem os vende, acerto sempre positivo de balanços de saldos bancários (desde
que o dono interessado ofereça umas luvas de camurça recheadas com muitas
conquilhas), aldrabanço e manipulação dos preços de acções cotadas em bolsa e
criação não pedida e muito imaginativa de documentos que só na aparência são
verdadeiros. Se a pobre empregada da limpeza ficara sem ar ao ler estes
relatos, teria um ataque cardíaco logo a seguir, razão pela qual se espetou com
o carro do patrão contra um muro forrado de barracas, as quais são dos
trabalhadores do condomínio que o dito muro encerra. É que na segunda leva, ou
novela como a colega esclareceu ao polícia dos autos que ficou muito
interessado na “literatura”, se contava com inspirado pormenor como o Banco dos
Ratinhos andava a contratar filhos de dirigentes de topo do Império do Arroz.
Como o Banco dos Ratinhos tem numerosos investimentos neste Império, em
indústrias estratégicas e outras (secretas), quer estar de bem com os líderes e
ter informação privilegiada para entrar em novas parcerias. Portanto, um dos
melhores investimentos é contratar-lhes os filhos, que no futuro sucederão aos
pais pois neste Império vigora uma monarquia não oficial mas efectiva; no
entanto a estratégia tem os seus problemas, como o caso duma das contratadas
que nunca estudara economia nem fazia ideia do que era uma balança de
pagamentos pois especializou-se em culinária. Porém a sua entrada no Banco
promoveu um activo movimento de capitais no mercado da restauração do Império,
que vai desde os restaurantes de luxo onde se comem patas de tigre flambés aos proletários carrinhos de
frituras onde se morfam rolos de vegetais tostados na hora e sem arrebiques
duma qualquer agência de verificação sanitária que, preocupada com normas de
higiene da asséptica União das Hortaliças, mataria em duas penadas o mais
antigo comércio de paparoca do mundo. Também ocorreu o caso do filho do senhor
dos caminhos-de-ferro que estudou teatro mas foi contratado como assessor
financeiro para a área das ferrovias. A sua entrada promoveu um incremento nas
indústrias do aço, da metalomecânica e construção de maquinaria pesada, pois a
partir dessa altura ocorrem descarrilamentos em todas as linhas de caminho-de-ferro
do país (um dos maiores do mundo) a todas as quartas-feiras, dia de transmissão
da ópera tradicional e que agora os maquinistas são obrigados a ouvir, por
resolução deste jovem artista. Também foi artista a arranjar um cofre secreto
no Cantão dos Queijos e a recheá-lo muito bem, tanto mais que já está em
negociações para comprar um segundo. O filho dum dirigente da marinha mercante,
e que se especializou em oceanografia, também foi contratado, momento a partir
do qual o Banco dos Ratinhos se dedicou à pesca e se pôs a meter água,
recenado-se agora que possa em breve ir ao fundo. Mas podemos ficar descansados
que antes disso o Banco dos Ratinhos irá passar os países todos a rating -20, com excepção do Império do Arroz
e do próprio Banco, que terão notação 21… pois é preciso é enganar os trouxas
na Bolsa, a burrice de uns é a salvação das conquilhas de outros.

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