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domingo, 10 de novembro de 2013

Na Capital dos Lagos de Gelo (descongelados devido às alterações climáticas) do Reino das Renas foi hoje conhecido o nome do vencedor do Nobel dos Ditadores de Sucesso deste ano. Trata-se nem mais nem menos do que o carismático líder do Império dos Ursos. Com efeito, após ter sido atribuído postumamente ao Batata-de-Semente e outros exterminadores particularmente bem-sucedidos no seu mister de assassinar milhões, o galardão decidiu mudar um pouco de rumo e premiar ditadores menos sanguinários mas nem por isso menos eficientes a eliminar adversários e grupos sociais do seu especial desagrado. Coube assim a inauguração deste novo ciclo ao eterno chefe dos destinos dos Ursos, o qual é tão adorado na sua pátria que até vai ter lugar cativo nos mausoléus do futuro. Foi o líder do Império dos Ursos escolhido pelo Comité dos Nobel, pelas suas grandes conquistas no sentido do aumento da repressão no mundo e em particular no seu país, sem que por isso haja perdido o poder, a guerra ou a cabeça. Raros são os líderes deste calibre que conseguem arrumar as botas descansadamente e dar a alma ao Criador no tempo previsto pelo dito, em vez da sua partida lhes ser apressada por inimigos externos ou internos. O Pupu, nome afectuoso com que é conhecido entre os Ursos, tem o muito invejável palmarés abaixo descrito. Iniciou carreira na mais infame polícia política do estado, antes do regime ter metido os pés pelas mãos e mudado de fatiota. Com a lata dos sobreviventes e um pouco de arrivista a temperar o caldo, fez-se eleger deputado e depois substituiu o amado Camarada dos Copos na liderança do país. Uma vez aí chegado, e sem jamais esquecer as lições aprendidas no início de carreia, atirou-se aos súbditos da etnia dos turbantes que tentavam tornar as suas montanhas independentes da Grande Mãe Pátria. Foi uma guerra cheia de sucessos, onde limpou sistematicamente os rebeldes, dando aos seus homens livre mão para violarem todas as chatas declarações de direitos humanos, que só servem para atrapalhar os exércitos que precisem dar no toutiço a insurgentes e aliás, de passagem, violou também um monte de mulheres e mais uma série doutras regras de regras e convenções de guerra, incluindo algumas que ainda não tinham passado pela cabeça dos legisladores. Esta actuação foi uma grande lição para os dos turbantes, os quais não conseguiram a independência mas exportaram as táticas recém-aprendidas para outros campos de conflito no estrangeiro. Ao mesmo tempo, e para não deixar que o moral dos seus governados baixasse durante a guerra, o que é uma traição de lesa-pátria, mandou os seus antigos colegas da polícia limparem o sebo e documentação de todos os jornalistas que porventura se lembrassem de denunciar as violações e atrocidades cometidas na guerra. A limpeza de sebo a jornalistas tornou-se desde essa altura, e mesmo com a guerra acabada há décadas, um desporto nacional muito apoiado pelo governo, com subsídios atribuídos aos melhores limpadores. A seguir, e guerra acabada, virou-se para o seu quintal e pôs-se a instaurar processos e a condenar todos os que o criticavam ou se armassem em seus adversários políticos pois a democracia no Império dos Ursos também é diferente das outras: aqui todos os cidadãos são livres… para concordarem com o Pupu. Quem se desse à fantasia de criticar as suas políticas e fosse suficientemente rico era acusado de corrupção e atentado à segurança nacional, ia para a prisa e os seus bens eram confiscados e dados a amigos do Pupu com currículo comprovado em corrupção, ligações à máfia local e tráfico de influências. Os pobres eram simplesmente condenados por vandalismo e ala para a grelha. Os tolos que porventura se lembrassem, e lembrem ainda pois os ursos são notórios pela falta de memória, de concorrer a eleições locais contra os amigos do Pupu são levados a tribunal acusados de fraude, corrupção, cedência de segredos de estado a potências estrangeiras e outras ilegalidades (o código penal do Império é muito criativo nesta matéria) e as suas sedes de campanha são criteriosamente assaltadas, vasculhadas e vandalizadas. Assim foram-se eliminando os adversários pois ninguém de juízo se atreve a desafiar o Pupu; até porque aqueles que se julgam espertos e fogem para o estrangeiro onde depois desatam a dar com a língua dos dentes também são eliminados com injecções de tálio devidamente dadas com a ponta de guarda-chuvas. De seguida, e porque o Pupu é um rapaz atilado que não gosta de bagunças, caçou uns ambientalistas que protestavam por causa do petróleo acusando-os de... pirataria. No Império dos Ursos só pode ser pirata quem tiver dinheiro bastante para pagar a carta de corso… perdão as concessões de exploração petrolífera, no mar ou na tundra gelada. Compreende-se, porque isto de ser pirata só dá se forem poucos ou o saque deixa de ser interessante. Infelizmente ainda enfrenta alguns problemas na tundra gelada pois vivem por lá uns povos da Idade da Pedra que protestam por lhe estarem a poluir os rios onde sempre foram buscar água e lhes impedirem as suas transumâncias milenares de renas. Como tal, o Pupu permite que os afectados pelos protestos usem a força para amouchar os protestantes e, no caso dos mais reivindicativos, promulgou um decreto que proíbe as associações dos primitivos, as quais são, segundo a lei, um perigo para a segurança do estado. Também tem sido fonte de inspiração e apoio a outros fortes líderes formados na mesma escola, como o do País dos Turbantes, embrulhado já há dois anos numa guerra doméstica e a quem o Pupu fornece dinheiro, armas e outras necessidades básicas, desde que satisfaça todas essas necessidades comprando-as ao Império dos Ursos. E o bom afilhado tem sido mui zeloso no contrato, pelo que a guerra segue o seu produtivo curso, limpando o país de habitantes, esperando-se para breve que só lá fiquem os zaragateiros. E porque tanta actividade mereceu alguns reparos da comunidade internacional, o Pupu foi recuperar a velha tradição da corrida às armas, usando para isso o ancestral receio dos seus súbditos face aos estrangeiros (que normalmente só lá iam para dar cacetada). Deste modo será promovida uma corrida mundial ao armamento, o que terá substanciais efeitos benéficos na economia global, tanto por aumentar as encomendas às fábricas de armas como, ao alimentar as guerras, baixar colateralmente as taxas de desemprego. Por fim, e dando resposta a um chefe de estado que na última reunião da Organização das Nações Desunidas declarou serem os praticantes de sexo em modalidades que não o papá-mamã o pior perigo para a sobrevivência da Humanidade (as alterações climáticas, guerras, fome, epidemias, poluição, colapso de ecossistemas não existem neste cenário), decidiu o amado Pupu proibir todas as associações destes “praticantes de sexo ilegal”, tendo lavrado em lei o que é o sexo legal, devidamente acompanhado, para benefício dos mais distraídos, de ilustrações elucidativas (as quais geraram uma anormal venda do diário oficial). O mesmo decreto-lei legalizou o espancamento, perseguição, violação, roubo, atropelamento, apedrejamento, linchamento ou assassinato (opção facultativa) dos “anormais” por parte dos “normais”, assim como o assalto, devassa, pilhagem, destruição e fogo posto às casas e demais propriedades dos primeiros. Tão carismático líder, possuidor de tão ampla visão de futuro tem garantidamente o seu lugar na História e com efeito assim é. Neste momento estão a reescrever-se os manuais de História do Império, que conta talvez com mais de 2000 anos se se considerarem os períodos ante-imperiais. Embora não se conheça ainda o índice do seu conteúdo, sabe-se já que terá todo um capítulo dedicado à acção do Pupu, apesar dele estar no poleiro há bem menos tempo do que os ditadores anteriores (os raríssimos líderes democráticos do país não foram incluídos na cronologia). Convenhamos, o Pupu merece. O Pupu merece até, não 1 mas 3 Prémios Nobel dos Ditadores de Sucesso.
 

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