Na Capital dos Lagos de Gelo
(descongelados devido às alterações climáticas) do Reino das Renas foi hoje
conhecido o nome do vencedor do Nobel dos Ditadores de Sucesso deste ano.
Trata-se nem mais nem menos do que o carismático líder do Império dos Ursos. Com
efeito, após ter sido atribuído postumamente ao Batata-de-Semente e outros
exterminadores particularmente bem-sucedidos no seu mister de assassinar
milhões, o galardão decidiu mudar um pouco de rumo e premiar ditadores menos
sanguinários mas nem por isso menos eficientes a eliminar adversários e grupos
sociais do seu especial desagrado. Coube assim a inauguração deste novo ciclo
ao eterno chefe dos destinos dos Ursos, o qual é tão adorado na sua pátria que
até vai ter lugar cativo nos mausoléus do futuro. Foi o líder do Império dos
Ursos escolhido pelo Comité dos Nobel, pelas suas grandes conquistas no sentido
do aumento da repressão no mundo e em particular no seu país, sem que por isso
haja perdido o poder, a guerra ou a cabeça. Raros são os líderes deste calibre
que conseguem arrumar as botas descansadamente e dar a alma ao Criador no tempo
previsto pelo dito, em vez da sua partida lhes ser apressada por inimigos
externos ou internos. O Pupu, nome afectuoso com que é conhecido entre os Ursos,
tem o muito invejável palmarés abaixo descrito. Iniciou carreira na mais infame
polícia política do estado, antes do regime ter metido os pés pelas mãos e
mudado de fatiota. Com a lata dos sobreviventes e um pouco de arrivista a
temperar o caldo, fez-se eleger deputado e depois substituiu o amado Camarada
dos Copos na liderança do país. Uma vez aí chegado, e sem jamais esquecer as
lições aprendidas no início de carreia, atirou-se aos súbditos da etnia dos
turbantes que tentavam tornar as suas montanhas independentes da Grande Mãe
Pátria. Foi uma guerra cheia de sucessos, onde limpou sistematicamente os
rebeldes, dando aos seus homens livre mão para violarem todas as chatas
declarações de direitos humanos, que só servem para atrapalhar os exércitos que
precisem dar no toutiço a insurgentes e aliás, de passagem, violou também um
monte de mulheres e mais uma série doutras regras de regras e convenções de
guerra, incluindo algumas que ainda não tinham passado pela cabeça dos
legisladores. Esta actuação foi uma grande lição para os dos turbantes, os
quais não conseguiram a independência mas exportaram as táticas recém-aprendidas
para outros campos de conflito no estrangeiro. Ao mesmo tempo, e para não
deixar que o moral dos seus governados baixasse durante a guerra, o que é uma
traição de lesa-pátria, mandou os seus antigos colegas da polícia limparem o
sebo e documentação de todos os jornalistas que porventura se lembrassem de
denunciar as violações e atrocidades cometidas na guerra. A limpeza de sebo a jornalistas
tornou-se desde essa altura, e mesmo com a guerra acabada há décadas, um
desporto nacional muito apoiado pelo governo, com subsídios atribuídos aos
melhores limpadores. A seguir, e guerra acabada, virou-se para o seu quintal e
pôs-se a instaurar processos e a condenar todos os que o criticavam ou se
armassem em seus adversários políticos pois a democracia no Império dos Ursos
também é diferente das outras: aqui todos os cidadãos são livres… para
concordarem com o Pupu. Quem se desse à fantasia de criticar as suas políticas
e fosse suficientemente rico era acusado de corrupção e atentado à segurança
nacional, ia para a prisa e os seus bens eram confiscados e dados a amigos do
Pupu com currículo comprovado em corrupção, ligações à máfia local e tráfico de
influências. Os pobres eram simplesmente condenados por vandalismo e ala para a
grelha. Os tolos que porventura se lembrassem, e lembrem ainda pois os ursos
são notórios pela falta de memória, de concorrer a eleições locais contra os
amigos do Pupu são levados a tribunal acusados de fraude, corrupção, cedência
de segredos de estado a potências estrangeiras e outras ilegalidades (o código
penal do Império é muito criativo nesta matéria) e as suas sedes de campanha são
criteriosamente assaltadas, vasculhadas e vandalizadas. Assim foram-se
eliminando os adversários pois ninguém de juízo se atreve a desafiar o Pupu;
até porque aqueles que se julgam espertos e fogem para o estrangeiro onde
depois desatam a dar com a língua dos dentes também são eliminados com
injecções de tálio devidamente dadas com a ponta de guarda-chuvas. De seguida,
e porque o Pupu é um rapaz atilado que não gosta de bagunças, caçou uns
ambientalistas que protestavam por causa do petróleo acusando-os de...
pirataria. No Império dos Ursos só pode ser pirata quem tiver dinheiro bastante
para pagar a carta de corso… perdão as concessões de exploração petrolífera, no
mar ou na tundra gelada. Compreende-se, porque isto de ser pirata só dá se
forem poucos ou o saque deixa de ser interessante. Infelizmente ainda enfrenta
alguns problemas na tundra gelada pois vivem por lá uns povos da Idade da Pedra
que protestam por lhe estarem a poluir os rios onde sempre foram buscar água e
lhes impedirem as suas transumâncias milenares de renas. Como tal, o Pupu
permite que os afectados pelos protestos usem a força para amouchar os
protestantes e, no caso dos mais reivindicativos, promulgou um decreto que
proíbe as associações dos primitivos, as quais são, segundo a lei, um perigo
para a segurança do estado. Também tem sido fonte de inspiração e apoio a
outros fortes líderes formados na mesma escola, como o do País dos Turbantes, embrulhado
já há dois anos numa guerra doméstica e a quem o Pupu fornece dinheiro, armas e
outras necessidades básicas, desde que satisfaça todas essas necessidades
comprando-as ao Império dos Ursos. E o bom afilhado tem sido mui zeloso no
contrato, pelo que a guerra segue o seu produtivo curso, limpando o país de
habitantes, esperando-se para breve que só lá fiquem os zaragateiros. E porque
tanta actividade mereceu alguns reparos da comunidade internacional, o Pupu foi
recuperar a velha tradição da corrida às armas, usando para isso o ancestral
receio dos seus súbditos face aos estrangeiros (que normalmente só lá iam para
dar cacetada). Deste modo será promovida uma corrida mundial ao armamento, o
que terá substanciais efeitos benéficos na economia global, tanto por aumentar
as encomendas às fábricas de armas como, ao alimentar as guerras, baixar
colateralmente as taxas de desemprego. Por fim, e dando resposta a um chefe de
estado que na última reunião da Organização das Nações Desunidas declarou serem
os praticantes de sexo em modalidades que não o papá-mamã o pior perigo para a
sobrevivência da Humanidade (as alterações climáticas, guerras, fome,
epidemias, poluição, colapso de ecossistemas não existem neste cenário),
decidiu o amado Pupu proibir todas as associações destes “praticantes de sexo
ilegal”, tendo lavrado em lei o que é o sexo legal, devidamente acompanhado,
para benefício dos mais distraídos, de ilustrações elucidativas (as quais geraram
uma anormal venda do diário oficial). O mesmo decreto-lei legalizou o
espancamento, perseguição, violação, roubo, atropelamento, apedrejamento,
linchamento ou assassinato (opção facultativa) dos “anormais” por parte dos
“normais”, assim como o assalto, devassa, pilhagem, destruição e fogo posto às
casas e demais propriedades dos primeiros. Tão carismático líder, possuidor de
tão ampla visão de futuro tem garantidamente o seu lugar na História e com
efeito assim é. Neste momento estão a reescrever-se os manuais de História do
Império, que conta talvez com mais de 2000 anos se se considerarem os períodos
ante-imperiais. Embora não se conheça ainda o índice do seu conteúdo, sabe-se
já que terá todo um capítulo dedicado à acção do Pupu, apesar dele estar no
poleiro há bem menos tempo do que os ditadores anteriores (os raríssimos
líderes democráticos do país não foram incluídos na cronologia). Convenhamos, o
Pupu merece. O Pupu merece até, não 1 mas 3 Prémios Nobel dos Ditadores de
Sucesso.Número total de visualizações de páginas
domingo, 10 de novembro de 2013
Na Capital dos Lagos de Gelo
(descongelados devido às alterações climáticas) do Reino das Renas foi hoje
conhecido o nome do vencedor do Nobel dos Ditadores de Sucesso deste ano.
Trata-se nem mais nem menos do que o carismático líder do Império dos Ursos. Com
efeito, após ter sido atribuído postumamente ao Batata-de-Semente e outros
exterminadores particularmente bem-sucedidos no seu mister de assassinar
milhões, o galardão decidiu mudar um pouco de rumo e premiar ditadores menos
sanguinários mas nem por isso menos eficientes a eliminar adversários e grupos
sociais do seu especial desagrado. Coube assim a inauguração deste novo ciclo
ao eterno chefe dos destinos dos Ursos, o qual é tão adorado na sua pátria que
até vai ter lugar cativo nos mausoléus do futuro. Foi o líder do Império dos
Ursos escolhido pelo Comité dos Nobel, pelas suas grandes conquistas no sentido
do aumento da repressão no mundo e em particular no seu país, sem que por isso
haja perdido o poder, a guerra ou a cabeça. Raros são os líderes deste calibre
que conseguem arrumar as botas descansadamente e dar a alma ao Criador no tempo
previsto pelo dito, em vez da sua partida lhes ser apressada por inimigos
externos ou internos. O Pupu, nome afectuoso com que é conhecido entre os Ursos,
tem o muito invejável palmarés abaixo descrito. Iniciou carreira na mais infame
polícia política do estado, antes do regime ter metido os pés pelas mãos e
mudado de fatiota. Com a lata dos sobreviventes e um pouco de arrivista a
temperar o caldo, fez-se eleger deputado e depois substituiu o amado Camarada
dos Copos na liderança do país. Uma vez aí chegado, e sem jamais esquecer as
lições aprendidas no início de carreia, atirou-se aos súbditos da etnia dos
turbantes que tentavam tornar as suas montanhas independentes da Grande Mãe
Pátria. Foi uma guerra cheia de sucessos, onde limpou sistematicamente os
rebeldes, dando aos seus homens livre mão para violarem todas as chatas
declarações de direitos humanos, que só servem para atrapalhar os exércitos que
precisem dar no toutiço a insurgentes e aliás, de passagem, violou também um
monte de mulheres e mais uma série doutras regras de regras e convenções de
guerra, incluindo algumas que ainda não tinham passado pela cabeça dos
legisladores. Esta actuação foi uma grande lição para os dos turbantes, os
quais não conseguiram a independência mas exportaram as táticas recém-aprendidas
para outros campos de conflito no estrangeiro. Ao mesmo tempo, e para não
deixar que o moral dos seus governados baixasse durante a guerra, o que é uma
traição de lesa-pátria, mandou os seus antigos colegas da polícia limparem o
sebo e documentação de todos os jornalistas que porventura se lembrassem de
denunciar as violações e atrocidades cometidas na guerra. A limpeza de sebo a jornalistas
tornou-se desde essa altura, e mesmo com a guerra acabada há décadas, um
desporto nacional muito apoiado pelo governo, com subsídios atribuídos aos
melhores limpadores. A seguir, e guerra acabada, virou-se para o seu quintal e
pôs-se a instaurar processos e a condenar todos os que o criticavam ou se
armassem em seus adversários políticos pois a democracia no Império dos Ursos
também é diferente das outras: aqui todos os cidadãos são livres… para
concordarem com o Pupu. Quem se desse à fantasia de criticar as suas políticas
e fosse suficientemente rico era acusado de corrupção e atentado à segurança
nacional, ia para a prisa e os seus bens eram confiscados e dados a amigos do
Pupu com currículo comprovado em corrupção, ligações à máfia local e tráfico de
influências. Os pobres eram simplesmente condenados por vandalismo e ala para a
grelha. Os tolos que porventura se lembrassem, e lembrem ainda pois os ursos
são notórios pela falta de memória, de concorrer a eleições locais contra os
amigos do Pupu são levados a tribunal acusados de fraude, corrupção, cedência
de segredos de estado a potências estrangeiras e outras ilegalidades (o código
penal do Império é muito criativo nesta matéria) e as suas sedes de campanha são
criteriosamente assaltadas, vasculhadas e vandalizadas. Assim foram-se
eliminando os adversários pois ninguém de juízo se atreve a desafiar o Pupu;
até porque aqueles que se julgam espertos e fogem para o estrangeiro onde
depois desatam a dar com a língua dos dentes também são eliminados com
injecções de tálio devidamente dadas com a ponta de guarda-chuvas. De seguida,
e porque o Pupu é um rapaz atilado que não gosta de bagunças, caçou uns
ambientalistas que protestavam por causa do petróleo acusando-os de...
pirataria. No Império dos Ursos só pode ser pirata quem tiver dinheiro bastante
para pagar a carta de corso… perdão as concessões de exploração petrolífera, no
mar ou na tundra gelada. Compreende-se, porque isto de ser pirata só dá se
forem poucos ou o saque deixa de ser interessante. Infelizmente ainda enfrenta
alguns problemas na tundra gelada pois vivem por lá uns povos da Idade da Pedra
que protestam por lhe estarem a poluir os rios onde sempre foram buscar água e
lhes impedirem as suas transumâncias milenares de renas. Como tal, o Pupu
permite que os afectados pelos protestos usem a força para amouchar os
protestantes e, no caso dos mais reivindicativos, promulgou um decreto que
proíbe as associações dos primitivos, as quais são, segundo a lei, um perigo
para a segurança do estado. Também tem sido fonte de inspiração e apoio a
outros fortes líderes formados na mesma escola, como o do País dos Turbantes, embrulhado
já há dois anos numa guerra doméstica e a quem o Pupu fornece dinheiro, armas e
outras necessidades básicas, desde que satisfaça todas essas necessidades
comprando-as ao Império dos Ursos. E o bom afilhado tem sido mui zeloso no
contrato, pelo que a guerra segue o seu produtivo curso, limpando o país de
habitantes, esperando-se para breve que só lá fiquem os zaragateiros. E porque
tanta actividade mereceu alguns reparos da comunidade internacional, o Pupu foi
recuperar a velha tradição da corrida às armas, usando para isso o ancestral
receio dos seus súbditos face aos estrangeiros (que normalmente só lá iam para
dar cacetada). Deste modo será promovida uma corrida mundial ao armamento, o
que terá substanciais efeitos benéficos na economia global, tanto por aumentar
as encomendas às fábricas de armas como, ao alimentar as guerras, baixar
colateralmente as taxas de desemprego. Por fim, e dando resposta a um chefe de
estado que na última reunião da Organização das Nações Desunidas declarou serem
os praticantes de sexo em modalidades que não o papá-mamã o pior perigo para a
sobrevivência da Humanidade (as alterações climáticas, guerras, fome,
epidemias, poluição, colapso de ecossistemas não existem neste cenário),
decidiu o amado Pupu proibir todas as associações destes “praticantes de sexo
ilegal”, tendo lavrado em lei o que é o sexo legal, devidamente acompanhado,
para benefício dos mais distraídos, de ilustrações elucidativas (as quais geraram
uma anormal venda do diário oficial). O mesmo decreto-lei legalizou o
espancamento, perseguição, violação, roubo, atropelamento, apedrejamento,
linchamento ou assassinato (opção facultativa) dos “anormais” por parte dos
“normais”, assim como o assalto, devassa, pilhagem, destruição e fogo posto às
casas e demais propriedades dos primeiros. Tão carismático líder, possuidor de
tão ampla visão de futuro tem garantidamente o seu lugar na História e com
efeito assim é. Neste momento estão a reescrever-se os manuais de História do
Império, que conta talvez com mais de 2000 anos se se considerarem os períodos
ante-imperiais. Embora não se conheça ainda o índice do seu conteúdo, sabe-se
já que terá todo um capítulo dedicado à acção do Pupu, apesar dele estar no
poleiro há bem menos tempo do que os ditadores anteriores (os raríssimos
líderes democráticos do país não foram incluídos na cronologia). Convenhamos, o
Pupu merece. O Pupu merece até, não 1 mas 3 Prémios Nobel dos Ditadores de
Sucesso.
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