O Charco do Milho é um pequeno
país que, embora situado numa posição geográfica muito peculiar, responsável
pelo seu nome, em regra não recebe os holofotes noticiosos porque ali se pasa nada, amigo. Mas o pequeno e
pobre país decidiu ser campeão das novas tecnologias no sector da informação,
por incentivo do seu visionário líder, que anda de candeias às avessas com os jornais
locais, uns chatos que não calam a caixa sobre o bonito negócio de extracção de
pez (uma coisa malcheirosa mas de grande valor para fazer crescer as
conquilhas, em especial as dos viveiros no Cantão dos Queijos) na grande
floresta tropical onde, só para enervar os homens de bem, vivem uns selvagens importunos
que têm a mania de reivindicar como suas as terras onde já os seus
tetra-tetra-tetra-tetra-trisavós viviam. Ridícula pretensão pois se eles não
abatem a floresta para nela instalar malcheirosos campos de exploração de pez
nem para construírem estâncias turísticas para milionários, grandes condomínios
fechados, ou marinas para iates aproveitando o imponente rio que passar por lá,
quem lhes dá o direito de pensarem que aqueles baldios são seus? As terras são
de quem as apanha e com elas lucra, e tenho dito. Se as florestas ajudam a
combater as alterações climáticas isso não interessa, pois quando o mar subir
ou faltar a água, o glorioso líder e família terão as suas mansões, campos de
golfe e centros de compras em lugares muito recatados de todas as catástrofes e
a água virá dalgum canto onde se apinham miseráveis trabalhadores, que a verão fluir
docemente dos seus quintais através de canalizações à prova de bala e ramais
clandestinos para o lugar de remanso das pessoas importantes. O que levou às do
cabo o líder do muy típico Charco foi
o facto de que os protestos dos selvagens e terroristas que se atam a árvores
prestes a serem demolidas com motosserras chegaram ao resto do mundo. Os
colonialistas da União das Hortaliças assinaram até um manifesto contra a
destruição da floresta e receberam com honras de primeira página um dos chefes
selvagens (como se o Charco do Milho fosse uma terra atrasada, veja-se a
afronta!), privando o excelso líder dos fabulosos lucros que, perdão, privando
o Charco do Milho dos fracos lucros (o mercado do pez está em crise, como sabem)
decorrentes da exploração deste seu precioso recurso A companhia do pez, cheia
de tefe-tefe, só irá para a floresta se os pagamentos por debaixo da mesa ao
grande líder do Charco receberem um corte de 50% e o exército for destacado
para proteger as operações dos perigosíssimos selvagens, que combatem com
temíveis pedras e ainda mais aterradores arcos e flechas pré-históricos. O
glorioso líder do Charco resignou-se a receber menos conquilhas no seu cofre
secreto do Cantão dos Queijos e concordou com as exigências. Neste momento o
exército avança já sobre a floresta, juntamente com grosso esquadrão de
sapos-boi voluntários, extremamente violentos e recrutados nas cadeias de todo
o continente, e rãs mercenárias conhecidas pela sua extrema toxicidade mal
entram em contacto com o inimigo. O objectivo primeiro e único é exterminar os
selvagens, tornando deste modo a selva muitíssimo mais segura. Quando estiver
segura ao ponto de se poder passear por ela, ou seja quando metade das suas
árvores e espécies animais tiverem também sido exterminadas pela desflorestação
e pelas actividades das companhias de pez, poder-se-á instalar complexos
turísticos para a elite financeira mundial, devidamente servidos com
prostitutas locais, de preferência selvagens dos países vizinhos pois os
turistas gostam muito de conhecer o exotismo destas paragens. Só que os malditos
jornais voltaram a agitar os cidadãos do Charco contra estes acontecimentos, ou
não estivessem eles ao serviço das perigosas forças colonialistas estrangeiras,
nas palavras do glorioso líder em brilhante discurso de 12 horas, onde deu a
conhecer o seu novo projecto de reforma da comunicação social. É tempo, disse o
divino líder, do Charco do Milho acompanhar a evolução tecnológica. Assim,
declarou entre muitos rolares de olhos, simulação de faltas de ar, esbracejares
furiosos, apoplexias, espasmos e tremores para galvanizar as hostes, a partir daquele
momento os jornais do país estavam todos encerrados. De facto nessa altura as
tropas estavam a partir à bazuca todos os escritórios e tipografias e a
eliminar a tiro todos os jornalistas, que são uma cáfila de traidores (aplauso,
aplauso, aplauso das claques pré-contratadas e muito bem ensaiadas pela equipe
do Ministério da Propaganda). Se os milhenses quiserem ler jornais terão agora
de o fazer na Rede-de-Pesca. Claro que todas as ligações aos sites
jornalísticos locais serão controladas por password,
a ser obtida no Ministério da Propaganda após averiguação de todas as
actividades do requerente desde o nascimento, incluindo a pesagem dos seus
excedentes fisiológicos nas fraldas. Só os milhenses devidamente certificados
até à 4ª geração de não serem subversivos nem permeáveis a qualquer
subversividade terão direito à password.
Sempre que um milhense se ligar aos sites dos jornais, a sua actividade será integralmente
monitorizada pela Polícia de Defesa e Vigilância do Charco (a PDVCaca). Será
bloqueada toda e qualquer tentativa de acesso à imprensa estrangeira seja pela
Rede-de-Pesca ou por jornais em papel traficados nas fronteiras. A qualquer
instante, e sem aviso, poderá a PDVCaca ou o Ministério da Propaganda bloquear
o aceso aos jornais online, e já
agora a toda a Rede-de-Pesca, caso se considere que o conteúdo destes desagrade
ao grande líder. Como castigo, o site
será imediatamente encerrado. Os felizardos com password encontrarão em lugar das notícias um interessante desenho
animado dum milhense todo roto, a abrir buracos, e uma tarjeta por cima anunciando:
“Estamos a Trabalhar para a Glória do Charco, Ajude-nos com o seu Contributo”.
Em alternativa poder-se-á fornecer ligação a missas campais, serviços de
apostas em combates de galos ou ao último jogo de futebol a contar para a Taça.
Deste modo, concluiu o glorioso líder ao fim das 12 horas e do mais espetacular
espasmo tremebundo que levou os presentes ao êxtase, o Charco do Milho entrará
na ilustre era digital. O facto de só a família do glorioso líder e poucos
amigos terem dinheiro para computadores e astronómicas taxas de ligação à
Rede-de-Pesca, não constituirá decerto entrave a tão revolucionário
empreendimento.
Fonte: Wikipedia

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