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terça-feira, 12 de novembro de 2013

O Charco do Milho é um pequeno país que, embora situado numa posição geográfica muito peculiar, responsável pelo seu nome, em regra não recebe os holofotes noticiosos porque ali se pasa nada, amigo. Mas o pequeno e pobre país decidiu ser campeão das novas tecnologias no sector da informação, por incentivo do seu visionário líder, que anda de candeias às avessas com os jornais locais, uns chatos que não calam a caixa sobre o bonito negócio de extracção de pez (uma coisa malcheirosa mas de grande valor para fazer crescer as conquilhas, em especial as dos viveiros no Cantão dos Queijos) na grande floresta tropical onde, só para enervar os homens de bem, vivem uns selvagens importunos que têm a mania de reivindicar como suas as terras onde já os seus tetra-tetra-tetra-tetra-trisavós viviam. Ridícula pretensão pois se eles não abatem a floresta para nela instalar malcheirosos campos de exploração de pez nem para construírem estâncias turísticas para milionários, grandes condomínios fechados, ou marinas para iates aproveitando o imponente rio que passar por lá, quem lhes dá o direito de pensarem que aqueles baldios são seus? As terras são de quem as apanha e com elas lucra, e tenho dito. Se as florestas ajudam a combater as alterações climáticas isso não interessa, pois quando o mar subir ou faltar a água, o glorioso líder e família terão as suas mansões, campos de golfe e centros de compras em lugares muito recatados de todas as catástrofes e a água virá dalgum canto onde se apinham miseráveis trabalhadores, que a verão fluir docemente dos seus quintais através de canalizações à prova de bala e ramais clandestinos para o lugar de remanso das pessoas importantes. O que levou às do cabo o líder do muy típico Charco foi o facto de que os protestos dos selvagens e terroristas que se atam a árvores prestes a serem demolidas com motosserras chegaram ao resto do mundo. Os colonialistas da União das Hortaliças assinaram até um manifesto contra a destruição da floresta e receberam com honras de primeira página um dos chefes selvagens (como se o Charco do Milho fosse uma terra atrasada, veja-se a afronta!), privando o excelso líder dos fabulosos lucros que, perdão, privando o Charco do Milho dos fracos lucros (o mercado do pez está em crise, como sabem) decorrentes da exploração deste seu precioso recurso A companhia do pez, cheia de tefe-tefe, só irá para a floresta se os pagamentos por debaixo da mesa ao grande líder do Charco receberem um corte de 50% e o exército for destacado para proteger as operações dos perigosíssimos selvagens, que combatem com temíveis pedras e ainda mais aterradores arcos e flechas pré-históricos. O glorioso líder do Charco resignou-se a receber menos conquilhas no seu cofre secreto do Cantão dos Queijos e concordou com as exigências. Neste momento o exército avança já sobre a floresta, juntamente com grosso esquadrão de sapos-boi voluntários, extremamente violentos e recrutados nas cadeias de todo o continente, e rãs mercenárias conhecidas pela sua extrema toxicidade mal entram em contacto com o inimigo. O objectivo primeiro e único é exterminar os selvagens, tornando deste modo a selva muitíssimo mais segura. Quando estiver segura ao ponto de se poder passear por ela, ou seja quando metade das suas árvores e espécies animais tiverem também sido exterminadas pela desflorestação e pelas actividades das companhias de pez, poder-se-á instalar complexos turísticos para a elite financeira mundial, devidamente servidos com prostitutas locais, de preferência selvagens dos países vizinhos pois os turistas gostam muito de conhecer o exotismo destas paragens. Só que os malditos jornais voltaram a agitar os cidadãos do Charco contra estes acontecimentos, ou não estivessem eles ao serviço das perigosas forças colonialistas estrangeiras, nas palavras do glorioso líder em brilhante discurso de 12 horas, onde deu a conhecer o seu novo projecto de reforma da comunicação social. É tempo, disse o divino líder, do Charco do Milho acompanhar a evolução tecnológica. Assim, declarou entre muitos rolares de olhos, simulação de faltas de ar, esbracejares furiosos, apoplexias, espasmos e tremores para galvanizar as hostes, a partir daquele momento os jornais do país estavam todos encerrados. De facto nessa altura as tropas estavam a partir à bazuca todos os escritórios e tipografias e a eliminar a tiro todos os jornalistas, que são uma cáfila de traidores (aplauso, aplauso, aplauso das claques pré-contratadas e muito bem ensaiadas pela equipe do Ministério da Propaganda). Se os milhenses quiserem ler jornais terão agora de o fazer na Rede-de-Pesca. Claro que todas as ligações aos sites jornalísticos locais serão controladas por password, a ser obtida no Ministério da Propaganda após averiguação de todas as actividades do requerente desde o nascimento, incluindo a pesagem dos seus excedentes fisiológicos nas fraldas. Só os milhenses devidamente certificados até à 4ª geração de não serem subversivos nem permeáveis a qualquer subversividade terão direito à password. Sempre que um milhense se ligar aos sites dos jornais, a sua actividade será integralmente monitorizada pela Polícia de Defesa e Vigilância do Charco (a PDVCaca). Será bloqueada toda e qualquer tentativa de acesso à imprensa estrangeira seja pela Rede-de-Pesca ou por jornais em papel traficados nas fronteiras. A qualquer instante, e sem aviso, poderá a PDVCaca ou o Ministério da Propaganda bloquear o aceso aos jornais online, e já agora a toda a Rede-de-Pesca, caso se considere que o conteúdo destes desagrade ao grande líder. Como castigo, o site será imediatamente encerrado. Os felizardos com password encontrarão em lugar das notícias um interessante desenho animado dum milhense todo roto, a abrir buracos, e uma tarjeta por cima anunciando: “Estamos a Trabalhar para a Glória do Charco, Ajude-nos com o seu Contributo”. Em alternativa poder-se-á fornecer ligação a missas campais, serviços de apostas em combates de galos ou ao último jogo de futebol a contar para a Taça. Deste modo, concluiu o glorioso líder ao fim das 12 horas e do mais espetacular espasmo tremebundo que levou os presentes ao êxtase, o Charco do Milho entrará na ilustre era digital. O facto de só a família do glorioso líder e poucos amigos terem dinheiro para computadores e astronómicas taxas de ligação à Rede-de-Pesca, não constituirá decerto entrave a tão revolucionário empreendimento.
Fonte: Wikipedia
 

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