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quinta-feira, 28 de novembro de 2013

O nosso jornal tem o prazer de anunciar que o Objectivo Milénio – o da Erradicação da Pobreza – que a União das Nações Desunidas proclamou aqui há uns anos com grande aparato, o qual durante anos se pensou ser mais uma daquelas metas inalcançáveis como a eliminação da poliomielite, malária, sarampo, das minas terrestres, da violência contra as mulheres ou minorias étnicas ou a redução dos gases de aquecer as estufas, e às quais por isso mesmo já ninguém presta atenção pois já se sabe que ninguém irá mexer uma palha para serem cumpridas, parece que afinal vai mesmo ser alcançado e com grande brevidade. Sim, não é uma miragem: o processo para erradicar a pobreza foi descoberto e desta vez no sítio menos propício a descobertas desde há pelo menos 450 anos. Pois é, a descoberta ocorreu inesperadamente na República dos Nabos pois estes, depois de darem novos mundos ao mundo ficaram tão cansados do parto que não deram mais nada senão emigrantes. E a fórmula para a erradicação da pobreza não exige investimentos estruturais incomportáveis para as débeis economias dos países pobres, nem grandes dirigentes políticos, programas económicos complexos (desaconselhados a estes países pobres que coitadinhos, só têm pessoas um pouco competentes, dizem os senhores do 1º mundo…) ou grandes alterações sociais. Não senhor! O programa é simples, prático e fácil de aplicar. Não é do estilo “basta juntar água” mas quase: trata-se simplesmente de… retirar todo o apoio aos pobres, com excepção das esmolas que algum cidadão mais caridoso ou distraído calhe de lhes atirar p’ró regaço, quando estes se encontrem à porta das igrejas, mesquitas e outros lugares de culto. Com efeito, salários mínimos, subsídios de desemprego e outras coisas altamente fantasiosas não só tiraram a querida e teologal virtude da caridade da vida social como são terríveis meios de destruição da vida dos pobres e da sua mobilidade social. Expliquemos: destroem a sua mobilidade social porque um pobre em vez de correr da igreja do Loreto, para a do Carmo, depois para a de S. Roque, da Estrela, da Graça ou do Sacramento, obedecendo aos horários das liturgias mais concorridas, atravessando por todo o tipo de bairros da cidade num único dia (querem melhor mobilidade social que esta?), passa a alapar-se à porta da Segurança Social e mobilidade… adeus. A mobilidade tem ainda a vantagem de dar gratuito exercício físico ao pobre, combatendo também a sua preguiçosa tendência para o sedentarismo e a consequente obesidade. Estes perniciosos apoios sociais destroem a vida do pobre pois o papel do pobre na sociedade é o de servir de transação comercial com o Paraíso – assim uma espécie de cupão de promoções celestiais – em que se vão acumulando pontos por cada esmola dada a um pobre encolhido à porta dos locais de culto até perfazer o total para um lugar cativo no Paraíso por parte do esmolador, que é sempre uma pessoa de bem (embora por vezes só os anjos saberão como o esmolador obteve a sua prosperidade financeira, o que demonstra que é um enriquecimento santo). Sem a existência dos pobres pedintes os esmoladores têm de ir para casa atormentados pela impossibilidade de cumprirem uma das 3 virtudes teologais – a caridade – e deste modo angustiarem-se se terão ou não conseguido juntar os pontos necessários para a admissão no clube do Paraíso. deste modo se prova que os pobres não são pobres apesar de provavelmente discordarem pois irão dizer-vos que têm fome, que não podem pagar a escola dos filhos, que não têm casa nem sapatos e tudo isso. Oh, gente materialista, nem só de pão vive o Homem! (mas sem ele é que não vive de certeza) O salário mínimo e os apoios sociais só metem na cabeça dos pobres demoníacas ideias de que são como as pessoas e portanto devem ter direito a trabalho, casa, saúde, escola para os filhos, e como não têm, daí à revolta e à rejeição dos desígnios da Providência vai um passinho. Este é o caminho da perdição das almas dos pobres (e dos não pobres pois deixam de ter os cupões de entrada para um apartamento celestial). Mas os pobres que aceitam esta ordem de coisas deixam de ser pobres porque já dizia o Mestre: dos pobres será o Reino dos Céus, ou seja, serão reis. Assim, propomos que sejam extintos os salários mínimos, os subsídios de doença, de desemprego, de sobrevivência, de reforma, de inserção social e até a comparticipação dos medicamentos. Também propomos que os proponentes destas ideias sejam atirados para o desemprego, sem nenhum subsídio nem apoio social, para que possam usufruir da glória de ser pobres porque não há maior glória do que ser rei. Tal medida tem ainda a vantagem de reduzir as despesas do Estado o que sem dúvida melhorará o défice (ou seja o fará aumentar) e em duas penadas resolverá o problema da crise: o défice, a dívida pública e a taxa de pobreza do país. E talvez também tenha o benefício adicional de nos libertar duma data de alucinados que gostam muito de andar dizer coisas.
 

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