Alterações no Horário do Comércio: Feche
Definitivamente a Sua Loja Mas Abra-a ao Domingo (e mande o pope polir a prata do
ícone)
O Fundo Mundial da Agiotagem, que
vive num universo alternativo de gabinetes de luxo cheios de metais, cromados e
puxadores dourados, com janelas panorâmicas para os centros arrumadinhos de
grandes cidades mas apesar de viver nesse outro universo de ficção não tem
qualquer óbice a dar palpites sobre a legislação civil, política, laboral e
social dos países por ele afectados (estamos novamente com problemas no
processador de texto, queríamos dizer: auxiliados) acaba de descobrir a forma
de dar corda ao comércio e ressuscitar economias mortas e a caminhar para
múmias. A fórmula consiste em levar as lojas de venda a retalho e de bairro à
falência e depois mandá-las abrir ao público – mesmo sem empregados, patrão ou
mercadoria – nos dias de descanso que consoante os países serão os domingos,
sábados ou sextas-feiras ou, no País das Vacas Sagradas, de cada vez que há um
feriado oficial ou um puja ou o dia
que calhe ser o sagrado na religião do antigo lojista. A experiência, para ser
implementada desde já com carácter de urgência na Democracia da Moussaka, que
foi aliás escolhida para palco de interessantíssimas experiências económicas
conduzidas pela Tripeça, a que pertence o Fundo, deixou muito surpreendidos os
antigos lojistas, que também já estão a fazer as malas para emigrarem, pois na
Moussaka só terão futuro a fazer de esqueletos, que é como quem diz, tijolo na
Quinta das Tabuletas. E isto se as famílias tiverem pilim para o funeral. Mas
os moussakenses são um povo habituado a dificuldades, empreendedor e criativo,
apesar de muitos dizerem o contrário. De facto até empreenderam que tinham de
ser independentes do Império dos Dervixes Rodopiantes quando todos os grandes
impérios da actual União lhes diziam para aguentarem pianinho. E lá o
conseguiram, razão porque agora, sempre que podem, fecham as portas nos narizes
dos dervixes. Deixando as malas meio abertas, os moussakenses começaram a ir a
casa dos vizinhos também lojistas (o negócio é desporto nacional na Moussaka)
pois já nã’ há pilim p’ra telemóvel, e deram corda não apenas aos sapatos mas à
imaginação. Houve reuniões destas em cada esquina, café, praça e bar de rebentiko, e para alegria dos dirigentes
políticos moussakenses, os lojistas ergueram-se à altura do desafio patriótico.
Assim, comunicaram de imediato ao Fundo Mundial da Agiotagem e à Tripeça a
lista de novas mercadorias que pretendem pôr à disposição dos turistas (já que
os nativos nem p’ás migalhas bolorentas têm cheta), solicitando a indicação das
regras de acondicionamento e embrulho dos produtos, dimensão de cada unidade,
mínimos de qualidade sanitária e taxas e impostos a incluir no preço de venda
ao público, embora tivessem alguma dificuldade para decidir se deviam remeter a
lista para a Cidade do Tacho/Couve-de-Bruxelas se para o planeta Vulcano, do
Dr. Spok. Assim os novos produtos a vender como recordação turística são:• Futuros mortos – com caixão devidamente decorado com motivos tradicionais de cada área típica do país.
•
Ar (incluindo o ar-que-lhe-deu) – em formatos Poluição de Antenas, Fogos-de-Estio,
Brisa Marinha, Perfume-de-Cicuta e outros aromas à escolha do freguês (não
confundir com perfumes pois esses são exclusivo doutra República e não queremos
cenas com direitos de autor); em caixas pequeninas, pequenas, médias grandes e
XXXL (com desconto especial para os batatenses mais anafados).
•
Buracos – nas solas, no estômago, nos ossos, na
roupa. Em formatos típicos e ao gosto do cliente Também se bordam buracos com
coloridos motivos tradicionais desde que o cliente traga as linhas e agulhas
pois nós cá já as vendemos todas aos penhores p’ra pagar o pão dos catraios.
•
Vazio – ao sabor da atmosfera de cada loja que
quando estiver aberta só deverá ser capaz de se encher do dito, devidamente
cercado pelas paredes e pelo tecto, e isto se estas ou o dito não tiverem eles
próprios buracos ou não caírem em cima dos clientes por impossibilidade de
manutenção.
•
Pedra – mas o cliente tem de trazer a maconha
pois já nã conseguimos fiado dos candongueiros.
•
Amanhã vamos embora – por isso escusam de cá
voltar. Vendemos suspiros de saudade a todo o turista que os queira, para
pagarmos as meias solas p’ra cavar a salto p’ra qualquer sítio.
Como para estas actividades se
espera que todos os moussakenses compareçam nas lojas aos domingos e as igrejas
fiquem por este modo desertas, para evitar o desemprego da classe sacerdotal,
sugerimos que os popes ortodoxos de cada paróquia – e os de todos os outros
cultos, já agora, que isto quando toca a desempregar todos contam – se
auto-empreguem a polir as pratas dos ícones (entretanto substituídas por prata
de caramelos de contrabando).
Fonte: artebizantina.blogspot.pt

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