Número total de visualizações de páginas

sábado, 23 de novembro de 2013

O Fundo Mundial da Agiotagem, que vive num universo alternativo de gabinetes de luxo cheios de metais, cromados e puxadores dourados, com janelas panorâmicas para os centros arrumadinhos de grandes cidades mas apesar de viver nesse outro universo de ficção não tem qualquer óbice a dar palpites sobre a legislação civil, política, laboral e social dos países por ele afectados (estamos novamente com problemas no processador de texto, queríamos dizer: auxiliados) acaba de descobrir a forma de dar corda ao comércio e ressuscitar economias mortas e a caminhar para múmias. A fórmula consiste em levar as lojas de venda a retalho e de bairro à falência e depois mandá-las abrir ao público – mesmo sem empregados, patrão ou mercadoria – nos dias de descanso que consoante os países serão os domingos, sábados ou sextas-feiras ou, no País das Vacas Sagradas, de cada vez que há um feriado oficial ou um puja ou o dia que calhe ser o sagrado na religião do antigo lojista. A experiência, para ser implementada desde já com carácter de urgência na Democracia da Moussaka, que foi aliás escolhida para palco de interessantíssimas experiências económicas conduzidas pela Tripeça, a que pertence o Fundo, deixou muito surpreendidos os antigos lojistas, que também já estão a fazer as malas para emigrarem, pois na Moussaka só terão futuro a fazer de esqueletos, que é como quem diz, tijolo na Quinta das Tabuletas. E isto se as famílias tiverem pilim para o funeral. Mas os moussakenses são um povo habituado a dificuldades, empreendedor e criativo, apesar de muitos dizerem o contrário. De facto até empreenderam que tinham de ser independentes do Império dos Dervixes Rodopiantes quando todos os grandes impérios da actual União lhes diziam para aguentarem pianinho. E lá o conseguiram, razão porque agora, sempre que podem, fecham as portas nos narizes dos dervixes. Deixando as malas meio abertas, os moussakenses começaram a ir a casa dos vizinhos também lojistas (o negócio é desporto nacional na Moussaka) pois já nã’ há pilim p’ra telemóvel, e deram corda não apenas aos sapatos mas à imaginação. Houve reuniões destas em cada esquina, café, praça e bar de rebentiko, e para alegria dos dirigentes políticos moussakenses, os lojistas ergueram-se à altura do desafio patriótico. Assim, comunicaram de imediato ao Fundo Mundial da Agiotagem e à Tripeça a lista de novas mercadorias que pretendem pôr à disposição dos turistas (já que os nativos nem p’ás migalhas bolorentas têm cheta), solicitando a indicação das regras de acondicionamento e embrulho dos produtos, dimensão de cada unidade, mínimos de qualidade sanitária e taxas e impostos a incluir no preço de venda ao público, embora tivessem alguma dificuldade para decidir se deviam remeter a lista para a Cidade do Tacho/Couve-de-Bruxelas se para o planeta Vulcano, do Dr. Spok. Assim os novos produtos a vender como recordação turística são:
        Sonhos desfeitos – à peça ou por atacado, em todas as cores e tamanhos.
        Futuros mortos – com caixão devidamente decorado com motivos tradicionais de cada área típica do país.
        Ar (incluindo o ar-que-lhe-deu) – em formatos Poluição de Antenas, Fogos-de-Estio, Brisa Marinha, Perfume-de-Cicuta e outros aromas à escolha do freguês (não confundir com perfumes pois esses são exclusivo doutra República e não queremos cenas com direitos de autor); em caixas pequeninas, pequenas, médias grandes e XXXL (com desconto especial para os batatenses mais anafados).
        Buracos – nas solas, no estômago, nos ossos, na roupa. Em formatos típicos e ao gosto do cliente Também se bordam buracos com coloridos motivos tradicionais desde que o cliente traga as linhas e agulhas pois nós cá já as vendemos todas aos penhores p’ra pagar o pão dos catraios.
        Vazio – ao sabor da atmosfera de cada loja que quando estiver aberta só deverá ser capaz de se encher do dito, devidamente cercado pelas paredes e pelo tecto, e isto se estas ou o dito não tiverem eles próprios buracos ou não caírem em cima dos clientes por impossibilidade de manutenção.
        Pedra – mas o cliente tem de trazer a maconha pois já nã conseguimos fiado dos candongueiros.
        Amanhã vamos embora – por isso escusam de cá voltar. Vendemos suspiros de saudade a todo o turista que os queira, para pagarmos as meias solas p’ra cavar a salto p’ra qualquer sítio.
Como para estas actividades se espera que todos os moussakenses compareçam nas lojas aos domingos e as igrejas fiquem por este modo desertas, para evitar o desemprego da classe sacerdotal, sugerimos que os popes ortodoxos de cada paróquia – e os de todos os outros cultos, já agora, que isto quando toca a desempregar todos contam – se auto-empreguem a polir as pratas dos ícones (entretanto substituídas por prata de caramelos de contrabando).
Fonte: artebizantina.blogspot.pt
 

Sem comentários:

Enviar um comentário