Em tese post-doc obtida por
créditos concedidos em função da sua vasta experiência profissional e escrita
não pelo próprio mas por um seu subalterno que deseja muito ser promovido num
futuro próximo, o muito bem sucedido gestor e agora Ministro das Trapalhadas
Estrangeiras do principado das Miragens (ou pelo menos, bem sucedido no que se
refere às suas contas bancárias pessoais porque dos bancos e fundações que
geriu já não se pode dizer o mesmo) foi revelado o segredo dos gestores de
sucesso. O post-doc foi integralmente baseado na experiência do candidato e não
mais do que essa, abarcando o ambiente profissional muito sui-géneris em que
decorreu a sua carreira, aliás analisada em forma laudatória pelo escravo que
escreveu a tese. Trata-se assim de uma tese baseada num universo de amostragem
constituído por um único indivíduo e em condições laborais que só muito por
acaso intersectam a realidade do comum dos mortais. Mas como o tesante é
ministro, a tese foi naturalmente classificada como de excepcional relevância e
as suas conclusões deverão ser implementadas universalmente. Assim o segredo do
gestor de sucesso é… o dom da ubiquidade. Porque o gestor de sucesso tem de
fazer tudo para pertencer aos conselhos de administração de 15 bancos, 10
parcerias público-privadas e exercer em 5 escritórios de advocacia concorrentes
entre si, que defendam e representam grandes magnatas internacionais, de
preferência com altos cargos políticos nos países de origem ou para onde se
tenham mudado por incompatibilidades com os sistemas jurídicos da terra natal. Ora
como é fisicamente impossível dar conta do recado de tantos cargos, ou sequer
comparecer às reuniões a estes associadas, já para não falar do trabalho
eventualmente associado, o gestor de sucesso tem de se apoiar em comprovadas
estratégias que assentam em três pilares:
1º - Ficar confortavelmente em
casa e praticar meditação transcendental até desenvolver plenamente as suas
capacidades de projecção astral e dom da ubiquidade. Tal deverá ser realizado
durante os anos de curso e antes de se candidatar a qualquer cargo de direcção.
O universitário que mergulhe neste tipo de treino deverá somente deixar o
aconchego do seu quarto durante a noite, para ir beber uns copos, pois é bem
conhecido como as pielas facilitam as projecções astrais (e as outras).
2º - Dominadas estas técnicas e
conseguidos os cargos (não é necessário ter concluído o curso universitário,
embora dê jeito) deverá o gestor permanecer em casa, ou no bar, nos copos,
exercendo as suas capacidades ubíquas e de projecção astral. Se nunca tiver
passado do nível um da “ubiquidade para totós” e ser um desastre em projecções,
o gestor pode sempre contratar um ou mais sósias, a contrato temporário para
não se porem de repente com ideias…
3 – Se por azar alguns dos
múltiplos cargos caçados tiverem algum trabalho real associado, o gestor deverá
contratar a curto prazo um estagiário sobredotado mas parolo no que respeita a
contas, para fazer o trabalho a custo zero. Caso haja sido necessário contratar
sósias, deverão estes ser multiusados para fazer o trabalho em questão, sem
aumento de salário pois as multitarefas são uma condição sine qua non para qualquer aspirante a um posto de trabalho hoje em
dia. Naturalmente, os salários destes cargos serão pagos não ao estagiário nem
ao(s) sósia(s) mas ao gestor em questão.
Os gurus da economia do
principado pretendem exportar este modelo, com a cobrança dos devidos royalties aos países parolos que queiram
ir no bote, assim como, de passagem, a todos os gestores para o resto do mundo
(dado o desastre local que têm sido a gerir até mesmo um simples negócio de
carrinho de cachorros e salsichas na brasa). A sua eventual incompetência não é
óbice ao seu emprego e exportação pois na economia de mercado franca e aberta,
os mercados e os seus actores são 100% racionais, logo o mercado auto-regula-se
por muito disparatadas que sejam as decisões efectuadas, desde que, é evidente,
não se apliquem quaisquer regulações aos mesmos. O facto, de desde que foram
desregulados, os mercados terem passado a rebentar a cada 10 anos, é simples
coincidência ou, mais inisidiosamente, manobra sabotadora da oposição.
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