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| fonte: giornalletismo.it |
Na Ilha dos Náufragos vai hoje
grande indignação por mor da visita do chefe da banda da União das Hortaliças.
Não é que os naufragados odeiem música, muito pelo contrário, são na verdade um
povo muito musical, muito expansivo, muito gesticulador e cativante, com uma
riquíssima tradição cultural que vai dos mecenas da arte à tradição operática,
engenheiros, soldados, envenenadores e arquitectos, já para não falar da arte
de comerciar e fazer roupa de estilo. Não, os náufragos estão danados porque os
têm deixado para ali a braços com graves problemas de poluição costeira e
ninguém se preocupou, apesar de também os náufragos serem, ou quererem ser, da
União (é sempre um pouco difícil definir o estatuto destes povos do sul no seio
da dita cuja). Estes problemas surgiram quando mais uma vez pelas tradicionais
vagas de navegadores à aventura, que atravessam o mar desde o Continente
Apagado, num timing perfeito que
antecede a inauguração da temporada das borrascas de Inverno e também da ópera
nos teatros locais. Na verdade os náufragos já passaram a adivinhar a mudança
das estações com base nesta migração de jangadas, tal como os seus antepassados
previam se estava na altura de colher a uva ou mondar a seara pelas migrações
de cegonhas e andorinhas. Estes navegadores são muito coloridos e de várias
confissões religiosas mas todos eles são iguais porque querem a todo o custo
chegar à Ilha dos Náufragos e nenhum sabe nadar. Além disso, porque os
materiais são caros e o dinheiro ainda o é mais, empilham-se aos magotes em
chalupas mal-amanhadas, ansiosos por quebrarem o novo redor ou de embarcações
sobrelotadas ou de mortos por naufrágio. Porque é que eles fogem do Continente
Apagado ninguém quer saber nem é importante pois os nativos dessa terra valem nos
mercados menos que a bolota, em especial se trajarem com véus ou turbantes pela
cabeça. Como valem menos do que a bolota e mesmo assim insistem em inundar a
União com as suas indesejáveis pessoas, foi criada uma sábia lei que proíbe a
ajuda a estes navegantes, mesmo se caídos ao mar e a meio segundo de se
afogarem, chamada Lei do Afoganço. Era para se chamar Lei de Tiro ao Afogado
pois o legislador até pensou numa cláusula ordenando o tiro aos caídos ao mar,
com prémios pecuniários de montante igual ao número de mortos produzidos, mais
extras para as embarcações que abalroassem e afundassem as chalupas; mas os
perigosos subversivos com a mania dos direitos humanos iriam fazer ondas e
ficou a marinar para a próxima. Enviou-se a nova lei para o Continente Apagado,
para levar os nativos a abandonar o desejo de viajar mas, como a generalidade
dos candidatos a navegantes não sabe ler porque ou a guerra deu cabo das escola
ou do sustento das famílias ou a religião proibiu os estudos, o resultado foi
nulo. E assim, as praias da Ilha dos Náufragos continuam a ser poluídas pelos
navegantes que não sabem nadar e se afogam. Os náufragos estão cansados de
limpar as praias e revoltaram-se quando o chefe da banda da União das
Hortaliças por lá apareceu de lágrima ao canto do olho para consolar os
residentes, pois estes queriam era ajuda para a limpeza do último naufrágio,
que terá direito a record de passageiro que menos tempo viveu pois a mãe deu à
luz pouco antes de se afogar. Também estavam zangados porque alguns vizinhos,
cansados de fazer de cangalheiros, tinham usado as suas embarcações não para
afogar mas para salvar os ainda vivos e estão agora presos pois desobedeceram à
Lei do Afoganço. O chefe da Banda da União das Hortaliças ficou muito
perturbado – as nossas escutas telefónicas comprovaram que não foi pela
exposição de caixões mas pelos apupos dos ilhéus e pelas perdas que se estão a dar
nas receitas do turismo – e mandou logo que se atacasse a sério o problema dado
que tão grande número de mortos desfigura as praias e enfurece os
empreendedores turísticos que perderam já 10% das receitas e ameaçaram que se
perdessem mais 1% se mudavam de armas, bagagens, hotéis, golfes e piscinas para
sítios menos concorridos Para já serão postos no mar muitos navios de guerra,
para torpedearem as chalupas e impedirem os subversivos de irem salvar
estrangeiros. A Lei do Afoganço, melhorada com a cláusula do abalroamento das
chalupas e tiro aos sobreviventes com prémio para quem matar mais, será
estritamente cumprida, com a ajuda vigilante desta nova frota, que também
afundará qualquer embarcação da União que tente ajudar os chalupas caídos ao
mar. Se mesmo depois do afundamento e do tiroteio cerrado – estão a
organizar-se campeonatos de tiro ao moribundo – houver alguns teimosos que
insistam em aprender a nadar, serão pescados com redes de faina do atum de
medidas proibidas por todos os convénios ecológicos, e pendurados nos mastros a
secar até devolução à procedência em caixas de cartão devidamente etiquetadas
com a seta Frágil e metidas nos contentores selados do cargueiro que fizer a
tarifa mais barata. Por estas meritórias razões, a União das Hortaliças acaba
de receber o Nobel dos Bonzinhos. É ou não é merecido?
Notícia de última hora: os pescadores que tentaram ajudar os moribundos
da última chalupa naufragada acabam de ser condenados a trabalhos forçados por
50 anos. Espera-se que morram todos muito antes disso, para exemplo moralizante
da sociedade


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