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O Instituto de Profissões
Alternativas, apresentou os resultados dum estudo que realizou a nível mundial,
com vista a descobrir novos nichos de mercado para os desempregados, a começar
para os cientistas e estatísticos desempregados que conduziram o referido
estudo. Embora as oportunidades variem significativamente entre áreas
geográficas, existe uma profissão que está no topo de todas as preferências: a
de micróbio patogénico. Com efeito, se no meado do século passado esta
profissão estava em franca regressão e até ameaçada de extinção nalgumas variantes,
graças às novas políticas económicas impostas no mundo e aos desentendimentos
geopolíticos, sem contar com o abate de antigas florestas em que micróbios
ancestrais e muito envergonhados – porque muito letais – se escondem, a
recuperação desta profissão foi fulgurante e promete hoje um futuro radioso a
quem a abrace (ou beije, ou troque seringas ou…) Talvez um dos melhores locais
para se ser micróbio neste momento seja o País das Flautas, sito na zona
montanhosa do Continente das Frutas. Neste país que passou por várias
guerrilhas locais e internacionais, o Fundo Mundial da Agiotagem veio consertar
as contas furadas pelas guerras, usando as políticas do costume. Descobrindo que
os nativos tinham hábitos de desperdício de água, o Fundo chamou uma empresa amiga,
da União das Hortaliças, para resolver o problema a preços de mercado e
promover a poupança, pois a água é um recurso escasso. A empresa em questão fez
de facto um trabalho meritório: abriu valas para os canos, instalou torneiras e
caixinhas muito engraçadas tipo contador, enfim, luxos que os selvagens
flautistas nunca tinham visto na vida e talvez nem mereçam. É verdade que em
muitos casos as valas foram deixadas abertas e nunca levaram canos mas, ao
contrário do que dizem os ingratos flautistas, estas não são um risco de vida e
sim uma interessante mais-valia para a paisagem, pois permitem que as crianças caiam
lá dentro e joguem às escondidas e que os adultos melhorem a sua robustez
física saltando por cima delas quando regressam do trabalho, isto se quiserem
chegar a casa. Ginástica diária e gratuita, o que querem vocês mais? Mas os
flautistas, esses ingratos, protestam que abrem as torneiras e a água não sai. A
empresa, incansável benemérita, explicou já que para haver água é preciso
pagar. E como está sedeada na União das Hortaliças, os preços são ao valor de
mercado do país mais rico da União, o que é justo. Afinal a pobre empresa não
tem culpa se os flautistas ganham em 3 anos o que se exige por metro cúbico de
água na União. Este investimento produziu vários e excelentes resultados: sem
direito a água, nunca os flautistas pouparam como agora, tendo-se atingido uma
poupança média de 100% por agregado familiar, ocupando-se as mulheres a irem
buscar água ao rio inundado de esgotos, sito a 20 kms de distância das suas
casas. O facto de em termos nacionais não se registar qualquer poupança (os
relvados e piscinas dos senhores importantes do país necessitam de muita água)
é um fenómeno que ainda não está devidamente esclarecido. Mas o melhor
resultado ocorreu ao nível da taxa de emprego. Sem água para os ameaçar, os
micróbios entraram em massa no país, desatando a matar a torto e a direito. Com
grande parte da população morta, os que restaram puderam encontrar trabalho e a
taxa de ocupação está agora nos 50% dado que os outros 50 ou estão muito
ocupados a morrer ou são velhotes e crianças demasiado pequenas para vergarem a
mola na estiva. A produtividade do país também cresceu imenso pois nunca como
agora se constroem e vendem caixões de todos os tamanhos e feitios. Os
micróbios estão já a chamar amigos e parentes do mundo inteiro, transformando
este pequeno e atrasado cantinho num lar cosmopolita onde se morre em todas as
línguas. O País das Flautas tornou-se a meca de todos os desempregados com
iniciativa suficiente para abandonarem as suas inúteis profissões de antanho e
se reciclarem em micróbios. Caso falhem a reciclagem, ou não tenham iniciativa,
sempre podem aí morrer com doença à sua escolha. Deste modo a economia mundial
será sanada do seu mais terrível flagelo: os queixinhas que dizem que não têm trabalho.


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