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terça-feira, 19 de novembro de 2013

hypesicence.com
O Instituto de Profissões Alternativas, apresentou os resultados dum estudo que realizou a nível mundial, com vista a descobrir novos nichos de mercado para os desempregados, a começar para os cientistas e estatísticos desempregados que conduziram o referido estudo. Embora as oportunidades variem significativamente entre áreas geográficas, existe uma profissão que está no topo de todas as preferências: a de micróbio patogénico. Com efeito, se no meado do século passado esta profissão estava em franca regressão e até ameaçada de extinção nalgumas variantes, graças às novas políticas económicas impostas no mundo e aos desentendimentos geopolíticos, sem contar com o abate de antigas florestas em que micróbios ancestrais e muito envergonhados – porque muito letais – se escondem, a recuperação desta profissão foi fulgurante e promete hoje um futuro radioso a quem a abrace (ou beije, ou troque seringas ou…) Talvez um dos melhores locais para se ser micróbio neste momento seja o País das Flautas, sito na zona montanhosa do Continente das Frutas. Neste país que passou por várias guerrilhas locais e internacionais, o Fundo Mundial da Agiotagem veio consertar as contas furadas pelas guerras, usando as políticas do costume. Descobrindo que os nativos tinham hábitos de desperdício de água, o Fundo chamou uma empresa amiga, da União das Hortaliças, para resolver o problema a preços de mercado e promover a poupança, pois a água é um recurso escasso. A empresa em questão fez de facto um trabalho meritório: abriu valas para os canos, instalou torneiras e caixinhas muito engraçadas tipo contador, enfim, luxos que os selvagens flautistas nunca tinham visto na vida e talvez nem mereçam. É verdade que em muitos casos as valas foram deixadas abertas e nunca levaram canos mas, ao contrário do que dizem os ingratos flautistas, estas não são um risco de vida e sim uma interessante mais-valia para a paisagem, pois permitem que as crianças caiam lá dentro e joguem às escondidas e que os adultos melhorem a sua robustez física saltando por cima delas quando regressam do trabalho, isto se quiserem chegar a casa. Ginástica diária e gratuita, o que querem vocês mais? Mas os flautistas, esses ingratos, protestam que abrem as torneiras e a água não sai. A empresa, incansável benemérita, explicou já que para haver água é preciso pagar. E como está sedeada na União das Hortaliças, os preços são ao valor de mercado do país mais rico da União, o que é justo. Afinal a pobre empresa não tem culpa se os flautistas ganham em 3 anos o que se exige por metro cúbico de água na União. Este investimento produziu vários e excelentes resultados: sem direito a água, nunca os flautistas pouparam como agora, tendo-se atingido uma poupança média de 100% por agregado familiar, ocupando-se as mulheres a irem buscar água ao rio inundado de esgotos, sito a 20 kms de distância das suas casas. O facto de em termos nacionais não se registar qualquer poupança (os relvados e piscinas dos senhores importantes do país necessitam de muita água) é um fenómeno que ainda não está devidamente esclarecido. Mas o melhor resultado ocorreu ao nível da taxa de emprego. Sem água para os ameaçar, os micróbios entraram em massa no país, desatando a matar a torto e a direito. Com grande parte da população morta, os que restaram puderam encontrar trabalho e a taxa de ocupação está agora nos 50% dado que os outros 50 ou estão muito ocupados a morrer ou são velhotes e crianças demasiado pequenas para vergarem a mola na estiva. A produtividade do país também cresceu imenso pois nunca como agora se constroem e vendem caixões de todos os tamanhos e feitios. Os micróbios estão já a chamar amigos e parentes do mundo inteiro, transformando este pequeno e atrasado cantinho num lar cosmopolita onde se morre em todas as línguas. O País das Flautas tornou-se a meca de todos os desempregados com iniciativa suficiente para abandonarem as suas inúteis profissões de antanho e se reciclarem em micróbios. Caso falhem a reciclagem, ou não tenham iniciativa, sempre podem aí morrer com doença à sua escolha. Deste modo a economia mundial será sanada do seu mais terrível flagelo: os queixinhas que dizem que não têm trabalho.

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