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quarta-feira, 9 de abril de 2014

Na sequência da notícia anterior e do sururú que deu nos órgãos de comunicação social do Nabal o facto de tanta gente, na altura mais difícil da famosa crise, ter ficado sem rendimento de inserção social, nem emprego nem nada de nada, a consciência cívica do super-hiper-ministro Paulo Ibn-Portões foi desperta e este, após madura reflexão sobre o problema, que demorou 30 segundos, veio explicar que essas pessoas ficaram sem subsídio porque são podres de ricas, têm mais de 100 000 brasas nas suas contas no banco, e portanto não precisam de ajudas para nada. Confusos, mas eivados do dever patriótico de informar as massas (quando mais não seja as da caixa de esparguete lá de casa), o nosso jornal despachou para a rua o repórter, Xoninhas Crédulo para ir indagar junto dos sem-abrigo e outros pobre profissionais se é mesmo verdade que têm pipas de massa e estão podres de dinheiro. E como o rapaz é bem mandado, foi… p’rá rua. Após entrevistar vários sem-abrigo, famílias apertadas em barracas de cartão construídas debaixo das pontes, que esperam a todo o momento demolição por buldozers pois não pagaram a licença de edificação de barraca, e uma carga de pulgas e piolhos de todo o tamanho – não pudémos deixá-lo entrar na redacção antes de se fumigar bem fumigado com DDT – o nosso Xoninhas regressou com os frutos do seu labor, que confirmam as duras palavras do grande excelentíssimo Paulo Ibn-Portões. Os pobres são na verdade riquíssimos! As refeições que se “esquecem” de comer são incontáveis, o cotão nos bolsos enche um cofre de um digno banco, os buracos nas solas dos sapatos – os que ainda os têm – e na roupa somam a várias dezenas de milhar. Também têm imensas molhas por mor dos buracos nos cartões dos telhados das barracas ou porque a dormir ao relento apanha-se toda a chuva que o céu descarrega, e essa ainda é grátis. Por enquanto. Muitos, tendo um grande espírito de empreendedorismo, têm também fugas sem conta à frente da polícia quando roubam comida no supermercado, e boa parte deles batem recordes de velocidade todos os dias, pois todos os dias têm de fanar qualquer coisa para meter no bucho. Também têm basta conta de dias em que têm de optar por ou comer ou tomar os medicamentos para se manterem vivos ou tomarem os medicamentos e ficarem sem comer, e são ainda mais numerosos os dias das suas contas em que nem para uma coisa nem para outra. Também já perderam o conto às rendas de casa em atraso e quanto a água, luz e gás, desapareceu das suas vidas há tanto tempo que já nem sabem o que isso é. E de facto têm contas bancárias com mais de 100 000 brasas, mas apenas que essas 100 mil são… saldo negativo. O nosso Xoninhas Crédulo foi aos bancos investigar e com efeito, as referidas contas têm um sinal menos antes do valor do saldo que o inefável e supremo ministro Sr. Paulo Ibn-Portões não viu quando estava a conferir os dados para a conferência de imprensa. Entretanto há grande agitação na rua ao saber-se como o Sr. Paulo Ibn-Portões sofre com as suas contas bancárias de vários milhares, e estes com um sinal + atrás, as comissões que vão passear até aos cofres de refrescantes ilhas tropicais, e com os seus carros, gastando uma fortuna só apra pagar ao motorista e ao mecânico para os manterem no ponto e prontos a transportá-lo para qualquer sítio. Movidos por um desinteressado bem-querer ao seu próximo, está já a circular entre os sem-abrigo e o pessoal das barracas um abaixo-assinado em como estão dispostos a oferecer ao Sr. Paulo Ibn-Portões os seus lugares de pernoita ao relento e embalos das chuvas pelas contas bancárias (sem mexidelas de saldo de última hora) e carros do Sr. Ministro. “É um bom negocio!” garantiu-nos Zé da Esquina “Quando o mercado recuperar, estes nossos bocadinhos onde estendemos os cartões e jornais para dormir vão subir de preço upa, upa! Que quer, é terreno urbano e mal o mercado imobiliário comece a mexer… Nós somos patriotas e queremos ajudar os senhores ministros, oferecendo-lhes as nossas riquezas, nem precisa de vir cá cobrar imposto, nós damos-lhes tudo”.


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