Na sequência da notícia anterior e do sururú que deu nos órgãos de
comunicação social do Nabal o facto de tanta gente, na altura mais difícil da
famosa crise, ter ficado sem rendimento de inserção social, nem emprego nem
nada de nada, a consciência cívica do super-hiper-ministro Paulo Ibn-Portões
foi desperta e este, após madura reflexão sobre o problema, que demorou 30
segundos, veio explicar que essas pessoas ficaram sem subsídio porque são
podres de ricas, têm mais de 100 000 brasas nas suas contas no banco, e
portanto não precisam de ajudas para nada. Confusos, mas eivados do dever
patriótico de informar as massas (quando mais não seja as da caixa de
esparguete lá de casa), o nosso jornal despachou para a rua o repórter,
Xoninhas Crédulo para ir indagar junto dos sem-abrigo e outros pobre
profissionais se é mesmo verdade que têm pipas de massa e estão podres de
dinheiro. E como o rapaz é bem mandado, foi… p’rá rua. Após entrevistar vários
sem-abrigo, famílias apertadas em barracas de cartão construídas debaixo das
pontes, que esperam a todo o momento demolição por buldozers pois não pagaram a
licença de edificação de barraca, e uma carga de pulgas e piolhos de todo o
tamanho – não pudémos deixá-lo entrar na redacção antes de se fumigar bem
fumigado com DDT – o nosso Xoninhas regressou com os frutos do seu labor, que
confirmam as duras palavras do grande excelentíssimo Paulo Ibn-Portões. Os
pobres são na verdade riquíssimos! As refeições que se “esquecem” de comer são
incontáveis, o cotão nos bolsos enche um cofre de um digno banco, os buracos
nas solas dos sapatos – os que ainda os têm – e na roupa somam a várias dezenas
de milhar. Também têm imensas molhas por mor dos buracos nos cartões dos
telhados das barracas ou porque a dormir ao relento apanha-se toda a chuva que
o céu descarrega, e essa ainda é grátis. Por enquanto. Muitos, tendo um grande
espírito de empreendedorismo, têm também fugas sem conta à frente da polícia
quando roubam comida no supermercado, e boa parte deles batem recordes de velocidade
todos os dias, pois todos os dias têm de fanar qualquer coisa para meter no
bucho. Também têm basta conta de dias em que têm de optar por ou comer ou tomar
os medicamentos para se manterem vivos ou tomarem os medicamentos e ficarem sem
comer, e são ainda mais numerosos os dias das suas contas em que nem para uma
coisa nem para outra. Também já perderam o conto às rendas de casa em atraso e
quanto a água, luz e gás, desapareceu das suas vidas há tanto tempo que já nem
sabem o que isso é. E de facto têm contas bancárias com mais de 100 000 brasas,
mas apenas que essas 100 mil são… saldo negativo. O nosso Xoninhas Crédulo foi
aos bancos investigar e com efeito, as referidas contas têm um sinal menos
antes do valor do saldo que o inefável e supremo ministro Sr. Paulo Ibn-Portões
não viu quando estava a conferir os dados para a conferência de imprensa.
Entretanto há grande agitação na rua ao saber-se como o Sr. Paulo Ibn-Portões
sofre com as suas contas bancárias de vários milhares, e estes com um sinal +
atrás, as comissões que vão passear até aos cofres de refrescantes ilhas
tropicais, e com os seus carros, gastando uma fortuna só apra pagar ao
motorista e ao mecânico para os manterem no ponto e prontos a transportá-lo
para qualquer sítio. Movidos por um desinteressado bem-querer ao seu próximo,
está já a circular entre os sem-abrigo e o pessoal das barracas um
abaixo-assinado em como estão dispostos a oferecer ao Sr. Paulo Ibn-Portões os
seus lugares de pernoita ao relento e embalos das chuvas pelas contas bancárias
(sem mexidelas de saldo de última hora) e carros do Sr. Ministro. “É um bom
negocio!” garantiu-nos Zé da Esquina “Quando o mercado recuperar, estes nossos
bocadinhos onde estendemos os cartões e jornais para dormir vão subir de preço
upa, upa! Que quer, é terreno urbano e mal o mercado imobiliário comece a
mexer… Nós somos patriotas e queremos ajudar os senhores ministros,
oferecendo-lhes as nossas riquezas, nem precisa de vir cá cobrar imposto, nós
damos-lhes tudo”.


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