Democracia É… Entrar Mudo e Sair Calado (ou vamos todos bater palmas ao estilo Kim Jong-Il: a Lei da Rolha –
Parte III)
Na República Democrática (cada vez mais às vezes) dos Nabos está-se em
grande afobação para as celebrações libertárias do regime. Sendo um ano de austeridade,
contenção orçamenta, e aperto do cinto, decidiram as autoridades celebrar a
coisa não em conjunto como até aqui mas cada um por seu lado, para pintar um
bonito cenário de pluralismo e liberdade inter-confessional. Assim, o
presidente celebra num sítio e com o seu grupo de convidados, os parlamentares
noutro e com convidados diferentes, o governo noutro e com lista de convidados distinta
das duas anteriores e… o povão fica em casa a ruminar frente à TV porque já nem
há massa para ir para o café da esquina comer uns tremoços e beber umas
b’jecas. As festas vão ser muito animadas pois celebram a liberdade das pessoas
poderem dizer e escrever aquilo que pensam sobre tudo e mais alguma coisa. E
para celebrar a liberdade de opinião e o fim da censura prévia, a Assembleia dos
Nabos Locais convidou os rapazes que há 40 anos mandaram o dono do carimbo
vermelho e da mordaça embora, e que deixaram já de ser rapazes e agora são
velhotes. Embora não os habituais velhotes resignados e acomodados “é como Deus
manda” pois se pudessem ainda partiam uns quantos pratos e atirá-los-iam a
certas cabeças que lhes calhassem de aparecer pela frente. Velhotes refilões,
estão a ver o estilo. Por essa razão, para comemorar em dignidade o regresso da
liberdade de faladura, escritura e pensamento, serão os velhotes convidados
para as festividades no Parlamento devendo… não abrir a boca. Nada mais
adequado, dizemos nós aqui no jornal, do que uma boca calada (à força e por
decreto) para celebrar a liberdade de expressão. Aliás, o Parlamento – lugar onde
por norma se devem debater ideias e opiniões – tem sido muito abalado nos
últimos tempos porque o povão que vai assistir aos debates também deu de querer
participar e se manifesta ora dizendo coisas, ora em silêncio mas desfraldando
faixas com frases de protesto, ou também em silêncio – e sem jamais impedir os
deputados de falar e agir – deitando papelinhos e outras doces decorações para
as bancadas, razão porque são indecentes e bárbaros nazis, do ponto de vista da
iluminada Presidente do Parlamento. Que para evitar mais atentados à sua
altíssima pessoa já pediu um estudo para limitar o direito do povo a assistir
aos trabalhos dos tipos que elegeu para aquele sítio, pois quem elege não tem
nada que meter o nariz e vigiar o que os seus eleitos andam a fazer. E apesar
de ser um ano de vacas magras, contenção orçamental, austeridade e aperto do
cinto, foi o estudo encomendado, embora os nossos infiltrados nos informem que
não era necessário pois a preclara Presidente já decidira que a partir de 1 de
Maio só terá acesso às galerias da casa quem possuir residência registada na
Quinta da Marinha, cartão de membro do Rotary Club, várias contas de 7 dígitos
em off-shores, amigos conhecidos dos
círculos do poder e se apresente em traje de gala para vernissages reais. Para que as celebrações corram na mais perfeita
harmonia e decoro, não só os Rapazes de Abril serão impedidos de discursar ou
mesmo de meter apartes e teatrais buchas
(falarão só os tipos que na altura andavam de fraldas ou ainda nem eram
nascidos) e o povão na galeria será assessorado por um polícia por cabeça, com
a missão de dar na referida cabeça se esta decidir botar faladura no meio das
celebrações. Para que o espectáculo saia em alta glória, esplendor e alegria,
os Rapazes de Abril estão já em intensos ensaios de bater palmas para poderem
batê-las em perfeita sincronia e com vigor apaixonado ao estilo “súbdito do
reino de Kim Jong-Il” (no qual onde quem bater palmas com menos vigor é levado
logo para a frente do pelotão de fuzilamento e despachado para a quinta das
tabuletas por “não mostrar o devido entusiasmo pelo querido líder”). Para esse
efeito mandaram já vir do Reino da Península da Fome o ensaiador-mor de
desfiles e palmas para ensinar à Rapaziada de Abril como é comportar-se com
termos. Na sequência deste protocolo de cooperação pensa-se em breve aplicar a
lei da corte de Kim Jong-Il à plateia das galerias do Parlamento, estendendo-a
mais tarde aos jornalistas e outros coscuvilheiros e que é: quem ousar
discordar leva um tiro nos miolos. E Viva a Liberdade!

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