Não Têm Água? Bebam Champanhe!
Da República dos Hambúrgueres
chegaram-nos notícias sobre a possibilidade de Maria Antonieta ter reencarnado
como CEO da internacional marca de productos lácteos e franchising no mercado das águas, a Ninhozinho e Natas Piupiu,
sedeada no Cantão dos Queijos, que tem embalado meninos e meninas há pelo menos
90 anos. A revelação ocorreu precisamente por causa do negócio da água que esta
empresa detem a nível mundial e que consiste em extrair a água de aquíferos no
mundo inteiro a preço reduzido ou mesmo nulo, em especial nos países menos
desenvolvidos e onde por esse motivo a regulação é menos exigente ou de todo
não existe e não é necessário estar-se a preocupar com sustentabilidades de
recursos e essas coisas que só danificam os lucros. Às vezes há pequenos
problemas colaterais, como os nativos ficarem sem água nos seus poços, quer
para beber quer para as suas hortas de subsistência mas podem sempre trabalhar
nos furos de captação da Ninhozinho, embora os salários sejam tão diminutos que
seria preferível não os ter mas ao menos os poços familiares estarem cheios.
Como se vê, um negócio muito carinhoso, em acordo com o emblema e nome do
Ninhozinho. É claro, compreenderão os leitores, que água de marca tem de ser
como a roupa de marca: só quem tem o bastante para se destacar da multidão a
deve poder comprar. E fácil é de ver que só quando a água e os aquíferos
tiverem donos específicos, como a Ninhozinho, é que o desenvolvimento alcançará
os nativos que, privados da água que sempre haviam tido (se o aquífero é
privado, eles não poderão lá fazer poços mas apenas a empresa que é dona da
coisa) terão de emigrar para as cidades, onde poderão trabalhar na reciclagem
de lixos despejados nas lixeiras e que têm de esgravatar à mão contra a
competição de abutres, chacais, macacos, onças e o excitante jogo de fuga ao
atropelamento e esmagamento por parte dos camiões despejadores da lixarada.
Podem até, maravilha das maravilhas, construir as suas barracas no próprio
local de trabalho, com lixos recolhidos no local, podendo usufruir dos aromas
da lixeira e da companhia da mosquitada. As crianças, essas, poderão brincar
aos carrinhos de choque ou ajudar os pais desde bebés na labuta de procurar
lixo vendável algures, até serem distraidamente soterradas pela montanha de
lixo despejada pelo camião mais próximo. Como se vê, a Ninhozinho pensa no
futuro destas pessoas, como empresa ética e que leva muito a sério as suas
responsabilidades sociais. Tanto assim é que quando um destes dias o CEO desta
companhia foi abordado por extremistas que o acusavam, e à empresa que dirige,
de violar direitos humanos dado que a água, no ver destes desmiolados, é um
direito humano, o bom senhor ficou muito chocado. Jamais imaginara que pudesse
existir tamanho extremismo no mundo! Onde é que a água era um direito humano? A
água era simplesmente uma mercadoria, como outra qualquer, quem tem pastel para
a comprar compra, quem não tem… e foi aqui que o caro CEO demonstrou a sua
compaixão para com os pobres, dizendo: “oh, mas se não podem comprar água,
porque não compram champanhe?” Na sequência deste episódio, as famílias reais
da República do Amor e do Queijo Gruyère e do Império das Valsas, contactaram
já médiuns e psiquiatras para efectuarem testes ao benemérito gestor, de modo a
averiguar se este será de facto a alma reencarnada da infeliz Maria Antonieta.
Por seu lado, os mais perigosos revolucionários da República do Amor e do
Queijo Gruyère, que se manifestaram no passado sábado pelas ruas da capital,
com cavalos e guilhotinas, pretendem ir imediatamente ao Cantão dos Queijos
usar uma das guilhotinas para, no entender do seu líder “concluir o trabalho
que ficou incompleto durante o período do Grande Terror”. A Ninhozinho,
preocupada com a segurança dos seus trabalhadores, providenciou segurança
reforçada e imediata aos seus gestores, tendo por isso de poupar na prevenção
de acidentes na perfuração de furos de captação de água e fábricas de
engarrafamento (houve já 100 acidentes de trabalho, o que permitiu renovar a
frota de trabalhadores). Também forneceu amostras de ADN às famílias reais, com
o compromisso de que, se se provar a reencarnação, o senhor em causa não poderá
usar vestidos mas será livre de envergar ceptro, coroa e anel de brasão nas
reuniões de administração da companhia.



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