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quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Foi apresentado o novo programa de financiamento da ciência na União das Hortaliças que tem o sugestivo e simultaneamente etéreo título de Paisagem 2020, a condizer com o etéreo, quase onírico, programa de investimento em Ciência da União das Hortaliças, isto se a União tiver resistido até lá, coisa que neste momento nem o professor Kazumba se atreve a tentar prever. Ficamos a saber então que temos de fazer investigação para apoiar as políticas da União – aviso aos cientistas desprevenidos: não, a ciência não é para descobrir coisas nem para compreender como o mundo e seus processos funcionam – e de apoiar a transição para a economia verde, mesmo que esta continue a ser muito preta por todas as razões que conhecemos, a começar pelas “forças de mercado” e a acabar no barril de petróleo. Mas o mais revolucionário do novo programa é o conjunto de verbas para a socialização. Sim, leram bem: socialização. Porque os sábios da capital do Tacho, começando a ver aqueles filmes de catástrofes que estão agora na berra, descobriram que os cientistas são uns rapazes e raparigas que em vez de irem a festas e jantares ficam horas perdidas fechados em gabinetes a olhar para computadores, ou no campo de rabinho para o ar a olhar para o chão ou então à noite, sozinhos, a espreitar por canudos compridos para umas pintinhas coloridas no céu a que chamam supernovas e coisas ainda mais esquisitas. Não são pessoas, enfim… sociáveis. Pensaram eles. E se bem o pensaram, melhor o exigiram, que são eles quem decide quem leva o pilim: está na altura de pôr esta rapaziada ser social. E vai daí, decidiram que metade do dinheiro para ciência na União, mais coisa menos coisa, tinha de ser para a rapaziada socializar, isto é, para fazer “networking”, que é como se diz em língua de gente fina; estão a ver, arranjar “redes” de colegas cientistas para depois um dia poderem talvez dedicar-se a fazer investigação. Porque quando a rapaziada da União estiver bem socializada, a ciência da União estará à frente… pelo menos no que toca a viajar de um lado para o outro, reunir aqui e ali, fazer uns relatoriozitos da treta sobre os programas “das festas”, perdão, o trabalho realizado, e quanto à ciência à séria, pura e dura… há-de vir com a inspiração dos bagaços ou dos vodkas marados servidos ao jantar. Será uma ciência muito espacial, muito volátil, muito etérea e seguramente muito à frente de qualquer sopradela no balão quando o pessoal for filado a caminho do aeroporto, no regresso a casa. Porque razão se deve canalizar tanto dinheiro para viagens, apenas para viagens e afins, quando hoje em dia há vídeoconferências e tantas outras formas de contacto, sem contar com os congressos internacionais, que aí sim, se discute ciência e se encontra gente com vontade de juntar ideias, é algo que só os deuses da Capital do Tacho/Couve-de-Bruxelas poderão talvez esclarecer, caso não hajam estado olímpicamente a dormir quando as luminárias da Unia o as Hortaliças tal decidiram. Os cientistas da União ficaram todos muito contentes com estas novidades e o pessoal de Agronomia está já a estruturar um projecto para compara os teores alcoólicos das várias bebidas.emblema de cada país apra depois regulamentar as taxas de álcool, de fermentação e leveduras, assim como sobre os processos de fabrico de cada uma, de modo a mandar às urtigas as técnicas de preparação tradicional, que não são compatíveis coma exportação em massa para o resto do mundo, mesmo que depois um vinho do vale do Tâmega fique a saber ao mesmo que uma cerveja da Suábia ou a um whisky das highlands. O importante é uniformizar e exportar. Por toda a União os cientistas, entusiasmados, atiraram-se já ao trabalho de preparar propostas deste calibre nas mais variadas áreas do conhecimento social, com vista a obterem os tão ansiados financiamentos para “networking”. Assim, se um destes dias, em vez do chef na berra vos aparecer no programa de culinária um especialista de bioquímica, não se surpreendam. Também não se surpreendam se, ao lhe seguirem as instruções, ficarem com uma mistela a saber a carbonilo de qualquer coisa em vez de bacalhau espiritual ou trouxas de ovos. Pela nossa parte aguardamos ansiosos as crónicas das festas da Quicas Fufú e as doutorais dissertações sobre os vestidos das debutantes no casino royal, proferidas por especialistas em matemática e ciências afins, ou a descrição da gala dos prémios da TV por um génio da biologia (é possível que por deformação profissional alguns convidados possam ser confundidos com gazelas no cio ou leões à zaragata por questões de território) ou que um grande mester da geologia vos apresente a rubrica de Etiqueta e Boas Maneiras, onde vos ensinará com desenvoltura a utilizar o martelo de geólogo nas cabeças dos convidados e a organizar uma recepção de forma tão elegante como o sismo de Fukushima. Quando isto acontecer, a União das Hortaliças talvez não vá ficar à frente de ninguém em termos de ciência mas ganhará com toda a certeza uma grande quantidade de cidadãos muito sociáveis.

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