
Foi apresentado o novo programa
de financiamento da ciência na União das Hortaliças que tem o sugestivo e
simultaneamente etéreo título de Paisagem
2020, a condizer com o
etéreo, quase onírico, programa de investimento em Ciência da União das
Hortaliças, isto se a União tiver resistido até lá, coisa que neste momento nem
o professor Kazumba se atreve a tentar prever. Ficamos a saber então que temos
de fazer investigação para apoiar as políticas da União – aviso aos cientistas
desprevenidos: não, a ciência não é para descobrir coisas nem para compreender
como o mundo e seus processos funcionam – e de apoiar a transição para a
economia verde, mesmo que esta continue a ser muito preta por todas as razões
que conhecemos, a começar pelas “forças de mercado” e a acabar no barril de
petróleo. Mas o mais revolucionário do novo programa é o conjunto de verbas
para a socialização. Sim, leram bem: socialização. Porque os sábios da capital
do Tacho, começando a ver aqueles filmes de catástrofes que estão agora na
berra, descobriram que os cientistas são uns rapazes e raparigas que em vez de
irem a festas e jantares ficam horas perdidas fechados em gabinetes a olhar
para computadores, ou no campo de rabinho para o ar a olhar para o chão ou
então à noite, sozinhos, a espreitar por canudos compridos para umas pintinhas
coloridas no céu a que chamam supernovas e coisas ainda mais esquisitas. Não
são pessoas, enfim… sociáveis. Pensaram eles. E se bem o pensaram, melhor o
exigiram, que são eles quem decide quem leva o pilim: está na altura de pôr
esta rapaziada ser social. E vai daí, decidiram que metade do dinheiro para
ciência na União, mais coisa menos coisa, tinha de ser para a rapaziada
socializar, isto é, para fazer “networking”, que é como se diz em língua de
gente fina; estão a ver, arranjar “redes” de colegas cientistas para depois um
dia poderem talvez dedicar-se a fazer investigação. Porque quando a rapaziada
da União estiver bem socializada, a ciência da União estará à frente… pelo
menos no que toca a viajar de um lado para o outro, reunir aqui e ali, fazer
uns relatoriozitos da treta sobre os programas “das festas”, perdão, o trabalho
realizado, e quanto à ciência à séria, pura e dura… há-de vir com a inspiração
dos bagaços ou dos vodkas marados servidos ao jantar. Será uma ciência muito
espacial, muito volátil, muito etérea e seguramente muito à frente de qualquer
sopradela no balão quando o pessoal for filado a caminho do aeroporto, no
regresso a casa. Porque razão se deve canalizar tanto dinheiro para viagens,
apenas para viagens e afins, quando hoje em dia há vídeoconferências e tantas
outras formas de contacto, sem contar com os congressos internacionais, que aí
sim, se discute ciência e se encontra gente com vontade de juntar ideias, é
algo que só os deuses da Capital do Tacho/Couve-de-Bruxelas poderão talvez
esclarecer, caso não hajam estado olímpicamente a dormir quando as luminárias
da Unia o as Hortaliças tal decidiram. Os cientistas da União ficaram todos
muito contentes com estas novidades e o pessoal de Agronomia está já a
estruturar um projecto para compara os teores alcoólicos das várias
bebidas.emblema de cada país apra depois regulamentar as taxas de álcool, de
fermentação e leveduras, assim como sobre os processos de fabrico de cada uma,
de modo a mandar às urtigas as técnicas de preparação tradicional, que não são
compatíveis coma exportação em massa para o resto do mundo, mesmo que depois um
vinho do vale do Tâmega fique a saber ao mesmo que uma cerveja da Suábia ou a
um whisky das
highlands. O importante
é uniformizar e exportar. Por toda a União os cientistas, entusiasmados,
atiraram-se já ao trabalho de preparar propostas deste calibre nas mais variadas
áreas do conhecimento social, com vista a obterem os tão ansiados
financiamentos para “networking”. Assim, se um destes dias, em vez do
chef na berra vos aparecer no programa
de culinária um especialista de bioquímica, não se surpreendam. Também não se surpreendam
se, ao lhe seguirem as instruções, ficarem com uma mistela a saber a carbonilo
de qualquer coisa em vez de bacalhau espiritual ou trouxas de ovos. Pela nossa
parte aguardamos ansiosos as crónicas das festas da Quicas Fufú e as doutorais
dissertações sobre os vestidos das debutantes no casino royal, proferidas por
especialistas em matemática e ciências afins, ou a descrição da gala dos
prémios da TV por um génio da biologia (é possível que por deformação
profissional alguns convidados possam ser confundidos com gazelas no cio ou
leões à zaragata por questões de território) ou que um grande mester da
geologia vos apresente a rubrica de Etiqueta e Boas Maneiras, onde vos ensinará
com desenvoltura a utilizar o martelo de geólogo nas cabeças dos convidados e a
organizar uma recepção de forma tão elegante como o sismo de Fukushima. Quando
isto acontecer, a União das Hortaliças talvez não vá ficar à frente de ninguém
em termos de ciência mas ganhará com toda a certeza uma grande quantidade de
cidadãos muito sociáveis.

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