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terça-feira, 5 de agosto de 2014

Não Tenho Nada Contra os Estrangeiros, Alguns dos Meus Melhores Amigos São Estrangeiros Mas Estes Estrangeiros Não São Daqui
O Cantão dos Queijos foi a referendo para saber se deve continuar a abrir as portas a trabalhadores estrangeiros ou pelo contrário fechá-las e aos poucos ir escorraçando todos os que já tem no território. E apesar do Cantão dos Queijos ter uma das mais invejáveis situações económicas – em grande parte por concentrar nos seus bancos as fortunas mal ganhas de muita gente que por todas as razões e mais algumas mantém as continhas secretas – e por possuir imensas indústrias, mas todas a poluir fora do país que, para os seus cidadãos se manterem felizes, é conservado numa pureza de fotografia de caixa de bolachas, a vasta maioria dos seus cidadãos votou a favor do “fora daqui estrangeiros”. O que prova que a caça aos estrangeiros é menos uma questão de crise e mais uma de burrice pura e dura ou, como nas palavras do “primitivo” chefe Tuvaii, os civilizados podem ter em sua casa todas as esteiras e porcos necessários para alimentar a sua e mais dez famílias mas não partilham nada disto com os que não têm esteiras ou comida. O que nos faz também pensar no que significa “ser civilizado”. Independentemente do que signifique, o Cantão dos Queijos – famoso por ser também o último país da Europa onde num dos seus cantinhos, no final do século XX, as mulheres ainda não tinham direito a votar, ultrapassando até as retrógradas civilizações dos Califados – espera agora em breve começar a impedir a entrada dos estrangeiros no país, a menos que venham de férias ou depositar o seu dinheirinho, antevendo-se num futuro próximo que os que já lá estão também sejam varridos para fora de portas. Note-se que na classificação estão incluídos os cidadãos da União das Hortaliças, o que vai contra todos os tratados mas quem se preocupa com isso? Claro, a União das Hortaliças começou por ficar muito chateada e cortar a cooperação científica com os Queijos, mas apenas em acto simbólico. Quanto aos negócios e actividades bancárias tudo continua como dantes pois os saldos bancários são mais importantes do que as pessoas. Depois, quanto tudo acalmar e o resto do mundo estiver a ver a bola, a União reatará todos os convénios agora suspensos e o Cantão dos Queijos fechará placidamente fronteiras e de seguida expulsará os forasteiros que já lá trabalhem (e os que andam à procura de trabalho). Entretanto continuará a ser sede de um frondoso ramalhete de organizações internacionais do mais alto nível dedicadas à defesa dos direitos humanos e nada poderá de facto ser mais lógico, dado que os estrangeiros não são pessoas, ao que parece. Será interessante ver daqui a uns anos como irá de vento em popa a economia dos Queijos, quando os administradores dos grandes bancos forem mandados embora, ou como será a higiene do esterilizado país quando as empregadas da limpeza forem todas deportadas, ou já agora os impecáveis cuidados de saúde quando auxiliares médicos e enfermeiros e outro pessoal menor dos hospitais tiver igual destino. Será decerto o alvorecer do grande milagre económico dos Queijos. Pela nossa parte, só podemos imaginar que, se países sem grandes problemas estão a agir assim, se estivessem a braços com a crise que devora o sul da União então… já haveria campos de extermínio para os estrangeiros? O nosso analista científico, perante tais resultados eleitorais e suas consequências que aqui prevemos, concluiu que nos encontramos numa louca viagem no tempo – sendo que o preço do bilhete será cobrado e com língua de palmo à chegada – e estamos quase a alcançar as décadas de 1930-1940. Por seu lado o nosso cartoonista de serviço declarou que as contas do nosso analista estão erradas e encontramo-nos sim à entrada da aldeia dos irredutíveis gauleses, já ouvindo do lado de fora da paliçada a imoral declaração de Agecanonix: “Não tenho nada contra os estrangeiros, alguns dos meus melhores amigos são estrangeiros mas estes estrangeiros não são daqui”, prestada imediatamente antes de passar à bengalada aos mesmos. Pelo menos, o actual nível de disparate é idêntico. Assim deixamos no ar uma perguntinha: Se acharmos que os outros não são pessoas com direito a fazerem pela vida como nós, o que é que somos? Civilizados?

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