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sábado, 23 de agosto de 2014


Os Assassinos São Boas Pessoas

Vai uma grande algazarra no Mar do Arroz porque o chefe tribal das Ilhas do Nascer do Sol foi visitar o santuário onde moram 14 criminosos de guerra que nas populares Ilhas são considerados heróis nacionais. Isto deu um grande alarido nos países vizinhos que na última grande guerra foram invadidos pelos kamikazes soldados do Nascer do Sol, tendo as suas populações sido agraciadas com numerosas actividades desportivas tais como o massacre dos civis desarmados que os bravos soldados do Nascer do Sol apanhassem pelas ruas, em casa ou fossem arrebanhados para os lugares de execução e violação colectiva, tendo também beneficiado da passagem imediata à escravatura, à imposição da prostituição obrigatória feminina (sem limite superior ou inferior de idade) para conforto dos soldados invasores e que por isso se encontravam longe de casa, entre outras actividades mais em segredo de estado mas nem por isso menos bárbaras ou sangrentas. Os países invadidos, mal-agradecidos, não gostaram destas benesses oferecidas pelos invasores e até hoje andam de candeias às avessas para reparações de guerra que as Ilhas do Sol Nascente, talvez por o apanharem tanto na moleirinha, recusam honrar porque, dizem, não têm qualquer memória nem sequer registo em papel de tais actividades extra-curriculares por parte dos seus soldados. Mas este ano, novamente, o primeiro ministro decidiu mudar as regras da casa e em vez de manter uma oficial posição de low profile, decidiu homenagear os 14 criminosos de guerra e o templo onde estão sepultados (os povos invadidos durante a guerra eram sepultados na valeta de beira da estrada quando não era deixado o serviço funerário à responsabilidade de corvos, lobos e abutres). O que mais uma vez demonstra a sabedoria do ditado: “nenhuma boa acção deixa de ser punida” , que o mesmo é dizer “nenhuma má acção deixa de ser recompensada”. Este primeiro-ministro é aliás um homem que dá nas vistas apesar de baixinho e não especialmente provido de atributos de galã, tendo entre outras interessantes performances od seu currículo a de ter no sue governo um ministro que defendeu a ideia de que os idosos e todos os que estivessem sem trabalho deveriam ser fisicamente eliminados pois “estão a mais”, talvez recordando os tempos primitivos do país, quando os filhos iam levar os pais velhos à montanha para morrerem sem dar trabalho à família, até ao dia em que um octagenário se virou para o filho depois de lhe dar metade da manta e disse: “filho és, pai serás”. Portanto matemos os velhos e os desempregados e louvemos os exemplos dos monstros em forma de gente, pois são os exemplos deles que devem ser seguidos nestes novos tempos de novos paradigmas sociais em que a tabela dos lucors é mais importante do que a vida. Naturalmente esta atitude civilizadora do sr. Atchinzoabbe causou celeuma internacional por parte dos reaccionários defensores da absurda ideia dos direitos humanos e ainda mais recriminações por parte de sobreviventes e familiares de mortos dos massacres desta Grande Guerra. E se em outros idos as Ilhas do Nascer do Sol podiam ignorar os resmungos dos vizinhos pois eram a grande potência industrial regional, hoje em dia são os invadidos que dão as cartas na região.  E porque realpolitik é o que está a dar, o sr. Atchinzoabbe viu-se na obrigação de dar algumas satisfações. Sendo um homem de curta palavra, a sua justificação foi apenas: “Este protesto é absurdo pois toda a gente sabe que os assassinos são boas pessoas, de outro modo não estariam sepultados num templo. Estamos aliás a considerar enviar os seus respectivos nome se currículos para a central internacional de canonização de santos e esperamos vir a ser bem-sucedidos. Afinal os assassinos em massa e criminosos de guerra contribuem imenso para a redução da população e consequentes impactos adversos do excesso de pessoas sobre o planeta. Ou como dizia o meu avô: no muito matar é que está o ganho”.

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