Os Assassinos São Boas Pessoas
Vai uma grande algazarra no Mar
do Arroz porque o chefe tribal das Ilhas do Nascer do Sol foi visitar o
santuário onde moram 14 criminosos de guerra que nas populares Ilhas são
considerados heróis nacionais. Isto deu um grande alarido nos países vizinhos
que na última grande guerra foram invadidos pelos kamikazes soldados do Nascer
do Sol, tendo as suas populações sido agraciadas com numerosas actividades
desportivas tais como o massacre dos civis desarmados que os bravos soldados do
Nascer do Sol apanhassem pelas ruas, em casa ou fossem arrebanhados para os
lugares de execução e violação colectiva, tendo também beneficiado da passagem
imediata à escravatura, à imposição da prostituição obrigatória feminina (sem
limite superior ou inferior de idade) para conforto dos soldados invasores e
que por isso se encontravam longe de casa, entre outras actividades mais em
segredo de estado mas nem por isso menos bárbaras ou sangrentas. Os países
invadidos, mal-agradecidos, não gostaram destas benesses oferecidas pelos
invasores e até hoje andam de candeias às avessas para reparações de guerra que
as Ilhas do Sol Nascente, talvez por o apanharem tanto na moleirinha, recusam
honrar porque, dizem, não têm qualquer memória nem sequer registo em papel de
tais actividades extra-curriculares por parte dos seus soldados. Mas este ano,
novamente, o primeiro ministro decidiu mudar as regras da casa e em vez de
manter uma oficial posição de low profile,
decidiu homenagear os 14 criminosos de guerra e o templo onde estão sepultados
(os povos invadidos durante a guerra eram sepultados na valeta de beira da
estrada quando não era deixado o serviço funerário à responsabilidade de
corvos, lobos e abutres). O que mais uma vez demonstra a sabedoria do ditado:
“nenhuma boa acção deixa de ser punida” , que o mesmo é dizer “nenhuma má acção
deixa de ser recompensada”. Este primeiro-ministro é aliás um homem que dá nas
vistas apesar de baixinho e não especialmente provido de atributos de galã,
tendo entre outras interessantes performances od seu currículo a de ter no sue
governo um ministro que defendeu a ideia de que os idosos e todos os que
estivessem sem trabalho deveriam ser fisicamente eliminados pois “estão a
mais”, talvez recordando os tempos primitivos do país, quando os filhos iam
levar os pais velhos à montanha para morrerem sem dar trabalho à família, até
ao dia em que um octagenário se virou para o filho depois de lhe dar metade da
manta e disse: “filho és, pai serás”. Portanto matemos os velhos e os
desempregados e louvemos os exemplos dos monstros em forma de gente, pois são
os exemplos deles que devem ser seguidos nestes novos tempos de novos paradigmas
sociais em que a tabela dos lucors é mais importante do que a vida.
Naturalmente esta atitude civilizadora do sr. Atchinzoabbe causou celeuma
internacional por parte dos reaccionários defensores da absurda ideia dos
direitos humanos e ainda mais recriminações por parte de sobreviventes e
familiares de mortos dos massacres desta Grande Guerra. E se em outros idos as
Ilhas do Nascer do Sol podiam ignorar os resmungos dos vizinhos pois eram a
grande potência industrial regional, hoje em dia são os invadidos que dão as
cartas na região. E porque realpolitik é
o que está a dar, o sr. Atchinzoabbe viu-se na obrigação de dar algumas
satisfações. Sendo um homem de curta palavra, a sua justificação foi apenas:
“Este protesto é absurdo pois toda a gente sabe que os assassinos são boas
pessoas, de outro modo não estariam sepultados num templo. Estamos aliás a
considerar enviar os seus respectivos nome se currículos para a central
internacional de canonização de santos e esperamos vir a ser bem-sucedidos.
Afinal os assassinos em massa e criminosos de guerra contribuem imenso para a
redução da população e consequentes impactos adversos do excesso de pessoas
sobre o planeta. Ou como dizia o meu avô: no muito matar é que está o ganho”.

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