Golpe de Estado no Paraíso

É oficial! O nosso repórter infiltrado no Paraíso de Meca e Medina acaba de nos informar por vídeo-conferência pirata que o deus da paz e do amor Allah-al-Akbar foi destronado em golpe de estado promovido pelos deuses pagãos e é agora o supremo líder desta fé um deus pagão da guerra de nome estranho – Tezcatlipoca – que exige que nos seus altares e templos e territórios da grande fé corram rios de sangue e se cometam todas as barbáries e atrocidades, de modo a que ele tenha sempre ao pequeno almoço frescas morcelas de sangue e bocadinhos de carne, tal e qual como nos gloriosos tempos do seu reino supremo sobre aztecas e mochicas. Daí que na Terra a causa haja de imediato sido abraçada pelo califa Iznogood do recém-criado Califado Ou Estás Por Mim Ou Estás Morto, e que finalmente é califa no lugar do califa, e que como homem prático e expedito que é, passou logo à acção. Vai daí, eivado dum imenso amor ao próximo, avançou com os seus homens pelo Califado do Petróleo adentro e desatou a matar todos quantos apanhou pela frente, até esmo os da sua religião mas de clube diferente, porque assim garantia que os mortos não irão para o céu mas ele irá de certeza, que é o que interessa. Além disso, para quem ainda tivesse dúvidas, o seu lema é “quem não está por mim, está morto”, nome que deu ao seu califado pessoal, para que os seus súbditos saibam sempre como devem pensar e orar. Além disso esta limpeza étnica e religiosa é uma imensa prova de amor para com a Humanidade pois que ao eliminar todos os que não acreditam no seu deus ou acreditam mas seguem variações sobre o tema, está a libertar o Mundo dos filhos de Satã, que é o mesmo que deitar pesticida numa seara para nos vermos livres das ervas daninhas. Pode lá haver maior amor que este?! E porque o seu amor não tem limites, a barbárie do extermínio dos “filhos de Satã” também não. Pois todos sabem que quanto mais cruel for uma execução ou um massacre, melhor o exemplo para que os outros abandonem as práticas de adoração a Satã e venham mas é integrar os exércitos de santos carrascos psicopatas do califa Iznogood. Porque matar em nome do califa e do seu deus é um acto que garante o céu ao assassino e o inferno à vítima. Assim matou-se duma só vez mais de 700 membros duma tribo síria, esquartejaram-se mulheres que se amarraram a carros, arrancando com eles em direcções opostas, em boa réplica turbo dos esquartejamentos medievais, enterraram-se vivas mulheres, homens e crianças ás centenas, degola-se todos os dias uma dezena de “heréticos” e nos intervalos crucifica-se e pega-se fogo ao pessoal que é para entreter os combatentes, coitados, que não têm outros filmes para ver. Mas se por acaso estais perturbados por estas novas e pensais que ireis perder o sono, acalmai-vos pois sábias luminárias nos garantem que tudo isto não passa de encenação hollywoodesca (tanto mais porque os mortos não os podem contradizer). Assim, podemos ir em paz e que o senhor nos acompanhe pois decerto no final das filmagens e no final das filmagens, as mulheres esquartejadas agarram nos seus bocados espalhados nas estradas e recompõem os seus corpos, as crianças enterradas vivas saem alegremente do fundo das covas, as escravas vendidas por 10 dólares no mercado de escravos vão ter com o patrão para levantar o cachet e as centenas de heréticos decapitados e crucificados arrumam os adereços e vão calmamente às suas vidas… no Outro Mundo. E como o grande Califado Ou Estás Por Mim Ou Estás Morto tenciona expandir horizontes até às terras infiéis do Norte e da Ibéria, pode ser que um dia tão edificantes espectáculos ocorram nas nossas ruas e praças e as tais luminárias descubram que as encenações são dolorosamente verídicas. A menos, claro, que façam parte da quinta coluna do Califado, estatuto que provavelmente lhes dará o direito de limparem do alcatrão os bocados dos heréticos assassinados em nome de Deus, como acontece a quem agora viaja até ao Califado a pensar que vai combater pelo glorioso califa Iznogood e ganhar o reino dos céus e 70 virgens só para si. Aqui pelo jornal só gostaríamos de saber de onde vem o dinheiro para tais exércitos e seu equipamento de ponta. É que o território que vai da Líbia ao Paquistão e África Equatorial, com extensões a Filipinas e Indonésia, é demasiado vasto para que mesmo um exército duma grande potência consiga desenvolver actividade em tantas frentes. Dá que pensar, não dá?


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