Realizaram-se hoje eleições
autárquicas no Charco do Milho e o Camarada Presidente/ espírita em part-time,
que fala com o Querido Líder encarnado em manchas de tinta, aves e mesa pé-de-galo,
sofreu triste surpresa quando lhe anunciaram os resultados. Tão grande na
verdade que pensou usar os seus novos poderes presidenciais para anular o
sufrágio e decretar que nunca mais durante o seu tempo de vida se tornaria a ir
às urnas no Charco. Foi porém impedido por duas razões de peso: a primeira, que
apesar do país ser grande produtor de petróleo, não havia pitróilo para fazer funcionar as rádios nem já agora as rotativas –
sim, leram bem, no Charco ainda se desconhecem as impressoras laser – ou o papel
para imprimir o Diário do Governo com o dito decreto; a segunda foi a de que tantas
visões deram tamanha fome ao Camarada Presidente que a sua cintura grácil passou
à forma barril e quando conseguiu ser enfiado no carro, o assento afundou,
abrindo um buraco na carroçaria, evento que de imediato explicou às televisões
reunidas para filmarem o rombo como sendo mais um infame boicote dos inimigos
da revolução. Assim, sem eleições anuladas para sempre por poder presidencial,
os eleitores puderam seguir a evolução do escrutínio na TV e descobriram que,
pelo menos nas zonas mais populosas, o Camarada Presidente levara uma abada das
antigas. E isto apesar de ter deixado que a escolha do dia de Natal se fizesse
pela popular “raspadinha” e introduzido curiosas inovações económicas como a dos
lojistas pagarem aos clientes pelos produtos que estes levem e, em dias de
saldos, até ofereçam mais três unidades além das levadas pelos fregueses. O
Camarada Presidente, incapaz de deter o curso dos acontecimentos, começou a
telefonar para as mesas de voto, querendo muito saber do destino dos votos que
tinham sido introduzidos nas urnas à razão de 2 por eleitor, previamente à
abertura das secções de voto, mas a resposta era sempre a mesma: “Camarada
Presidente, o seu homem de mão deve ter-se enganado no saco dos votos – ou está
do lado da oposição – porque não há nenhum desses por cá”. Desesperado, o
Camarada Presidente, já a cair de maduro, mandou a polícia política atrás dos
homens de mão faltosos mas estes juraram, mesmo após prolongada sessão de
tortura, que eram fidelíssimos ao maduro e tinham colocado os votos todos tal
como vinham nos sacos selados do Palácio Presidencial. Aqui havia um problema
porque fora o próprio Camarada Presidente quem enchera os sacos. E foi então
que uma voz conhecida lhe arrepiou a espinha. Virou-se e viu na TV o camarada
pássaro-presidente a responder em directo, não apenas aos jornalistas mas
também aos telespectadores, os quais nem precisavam de fazer a chamada
telefónica de valor acrescentado que passava no rodapé das imagens pois sendo
agora espírito, podia ligar-se telepaticamente a todos os seus súbditos. E
antes que o Camarada Presidente a cair de maduro agarrasse no telefone – desta
não ia pôr-se com avarias espíritas – o camarada pássaro-presidente respondeu,
piscando-lhe o olho e erguendo a colorida popa da cabeça: Sei bem o que estás a
pensar, meu grande maduro, mas aldrabar as eleições não é democrático. Se
querias ganhar, não fosses um forreta com a alpista! E dito isto, levantou voo
em direcção à floresta tropical, antes que ela desaparecesse de vez.Número total de visualizações de páginas
quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
Realizaram-se hoje eleições
autárquicas no Charco do Milho e o Camarada Presidente/ espírita em part-time,
que fala com o Querido Líder encarnado em manchas de tinta, aves e mesa pé-de-galo,
sofreu triste surpresa quando lhe anunciaram os resultados. Tão grande na
verdade que pensou usar os seus novos poderes presidenciais para anular o
sufrágio e decretar que nunca mais durante o seu tempo de vida se tornaria a ir
às urnas no Charco. Foi porém impedido por duas razões de peso: a primeira, que
apesar do país ser grande produtor de petróleo, não havia pitróilo para fazer funcionar as rádios nem já agora as rotativas –
sim, leram bem, no Charco ainda se desconhecem as impressoras laser – ou o papel
para imprimir o Diário do Governo com o dito decreto; a segunda foi a de que tantas
visões deram tamanha fome ao Camarada Presidente que a sua cintura grácil passou
à forma barril e quando conseguiu ser enfiado no carro, o assento afundou,
abrindo um buraco na carroçaria, evento que de imediato explicou às televisões
reunidas para filmarem o rombo como sendo mais um infame boicote dos inimigos
da revolução. Assim, sem eleições anuladas para sempre por poder presidencial,
os eleitores puderam seguir a evolução do escrutínio na TV e descobriram que,
pelo menos nas zonas mais populosas, o Camarada Presidente levara uma abada das
antigas. E isto apesar de ter deixado que a escolha do dia de Natal se fizesse
pela popular “raspadinha” e introduzido curiosas inovações económicas como a dos
lojistas pagarem aos clientes pelos produtos que estes levem e, em dias de
saldos, até ofereçam mais três unidades além das levadas pelos fregueses. O
Camarada Presidente, incapaz de deter o curso dos acontecimentos, começou a
telefonar para as mesas de voto, querendo muito saber do destino dos votos que
tinham sido introduzidos nas urnas à razão de 2 por eleitor, previamente à
abertura das secções de voto, mas a resposta era sempre a mesma: “Camarada
Presidente, o seu homem de mão deve ter-se enganado no saco dos votos – ou está
do lado da oposição – porque não há nenhum desses por cá”. Desesperado, o
Camarada Presidente, já a cair de maduro, mandou a polícia política atrás dos
homens de mão faltosos mas estes juraram, mesmo após prolongada sessão de
tortura, que eram fidelíssimos ao maduro e tinham colocado os votos todos tal
como vinham nos sacos selados do Palácio Presidencial. Aqui havia um problema
porque fora o próprio Camarada Presidente quem enchera os sacos. E foi então
que uma voz conhecida lhe arrepiou a espinha. Virou-se e viu na TV o camarada
pássaro-presidente a responder em directo, não apenas aos jornalistas mas
também aos telespectadores, os quais nem precisavam de fazer a chamada
telefónica de valor acrescentado que passava no rodapé das imagens pois sendo
agora espírito, podia ligar-se telepaticamente a todos os seus súbditos. E
antes que o Camarada Presidente a cair de maduro agarrasse no telefone – desta
não ia pôr-se com avarias espíritas – o camarada pássaro-presidente respondeu,
piscando-lhe o olho e erguendo a colorida popa da cabeça: Sei bem o que estás a
pensar, meu grande maduro, mas aldrabar as eleições não é democrático. Se
querias ganhar, não fosses um forreta com a alpista! E dito isto, levantou voo
em direcção à floresta tropical, antes que ela desaparecesse de vez.
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