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quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Realizaram-se hoje eleições autárquicas no Charco do Milho e o Camarada Presidente/ espírita em part-time, que fala com o Querido Líder encarnado em manchas de tinta, aves e mesa pé-de-galo, sofreu triste surpresa quando lhe anunciaram os resultados. Tão grande na verdade que pensou usar os seus novos poderes presidenciais para anular o sufrágio e decretar que nunca mais durante o seu tempo de vida se tornaria a ir às urnas no Charco. Foi porém impedido por duas razões de peso: a primeira, que apesar do país ser grande produtor de petróleo, não havia pitróilo para fazer funcionar as rádios nem já agora as rotativas – sim, leram bem, no Charco ainda se desconhecem as impressoras laser – ou o papel para imprimir o Diário do Governo com o dito decreto; a segunda foi a de que tantas visões deram tamanha fome ao Camarada Presidente que a sua cintura grácil passou à forma barril e quando conseguiu ser enfiado no carro, o assento afundou, abrindo um buraco na carroçaria, evento que de imediato explicou às televisões reunidas para filmarem o rombo como sendo mais um infame boicote dos inimigos da revolução. Assim, sem eleições anuladas para sempre por poder presidencial, os eleitores puderam seguir a evolução do escrutínio na TV e descobriram que, pelo menos nas zonas mais populosas, o Camarada Presidente levara uma abada das antigas. E isto apesar de ter deixado que a escolha do dia de Natal se fizesse pela popular “raspadinha” e introduzido curiosas inovações económicas como a dos lojistas pagarem aos clientes pelos produtos que estes levem e, em dias de saldos, até ofereçam mais três unidades além das levadas pelos fregueses. O Camarada Presidente, incapaz de deter o curso dos acontecimentos, começou a telefonar para as mesas de voto, querendo muito saber do destino dos votos que tinham sido introduzidos nas urnas à razão de 2 por eleitor, previamente à abertura das secções de voto, mas a resposta era sempre a mesma: “Camarada Presidente, o seu homem de mão deve ter-se enganado no saco dos votos – ou está do lado da oposição – porque não há nenhum desses por cá”. Desesperado, o Camarada Presidente, já a cair de maduro, mandou a polícia política atrás dos homens de mão faltosos mas estes juraram, mesmo após prolongada sessão de tortura, que eram fidelíssimos ao maduro e tinham colocado os votos todos tal como vinham nos sacos selados do Palácio Presidencial. Aqui havia um problema porque fora o próprio Camarada Presidente quem enchera os sacos. E foi então que uma voz conhecida lhe arrepiou a espinha. Virou-se e viu na TV o camarada pássaro-presidente a responder em directo, não apenas aos jornalistas mas também aos telespectadores, os quais nem precisavam de fazer a chamada telefónica de valor acrescentado que passava no rodapé das imagens pois sendo agora espírito, podia ligar-se telepaticamente a todos os seus súbditos. E antes que o Camarada Presidente a cair de maduro agarrasse no telefone – desta não ia pôr-se com avarias espíritas – o camarada pássaro-presidente respondeu, piscando-lhe o olho e erguendo a colorida popa da cabeça: Sei bem o que estás a pensar, meu grande maduro, mas aldrabar as eleições não é democrático. Se querias ganhar, não fosses um forreta com a alpista! E dito isto, levantou voo em direcção à floresta tropical, antes que ela desaparecesse de vez.
 

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