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quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

fonte: associação do gado asininio de Miranda
A grande e sábia nação do Califado da Pedra e do Petróleo, especialista em assuntos financeiros e religiosos – uma coisa normalmente está ligada à outra – esclareceu ontem os interessados, pela voz de um dos seus mais respeitados líderes religiosos, sobre a razão única e absoluta para o Mundo estar agora muito mais perigoso e violento do que no passado: as mulheres passaram a conduzir automóveis. Sim, a razão da violência étnica, religiosa e económica resulta toda desse pecaminoso costume de as deixar sentar ao volante. Na verdade deixar as mulheres conduzir tem destruído as sociedades de todo o mundo, razão pela qual o Califado da Pedra e do Petróleo permanecerá o único país onde tal prática nunca se legalizará e pede o líder para por favor deixarem de falar no assunto pois este nem sequer está para futura discussão. O Califado da Pedra e do Petróleo leva muito a sério a protecção da sua sociedade, como país esclarecido que é, o que poderá justificar precisamente a elevadíssima taxa de acidentes rodoviários – e ainda bem que boa parte daquilo é deserto e muitos dos carros em vez de andar atascam na areia ou então nem os camelos se safavam – e tem várias importantes leis protectoras de similar calibre. De facto tem de se reconhecer que uma mulher conduzir o pai, o marido ou, pecado dos pecados, qualquer homem estranho ao hospital porque este está a ter uma crise de diabetes é um perigo tremendo para a sociedade. O certo é deixar que o dito tenha um desmaio ao volante e se estampe contra a primeira parede, o que muito poupa nos gastos com hospitais e reformas ou salários, apesar deste país não sofrer de problemas de défice. Também se uma mulher estiver sozinha em casa porque o marido foi onde teve de ir e entrar em trabalho de parto, não deverá conduzir, mas ter a criança em casa podendo até morrer no processo, como o Senhor destinou, em vez de pegar no carro e ir ao hospital, contrariando a vontade de Deus. É uma mãe a menos, um bando de miúdos órfãos a mais mas isso é bom para a sociedade pois ensina-nos a submeter-nos ao mandato divino. Também não põe ideias estranhas na cabeça das fêmeas como andarem a visitar-se umas às outras sem a companhia de um guardião masculino, quiçá em reuniões subversivas para reivindicar direitos cidadania e provocar tumultos desnecessários com as suas injustas reivindicações. Ou se forem vaidosas, como todas são, dar-lhes na cabeça de irem de carro até ao centro comercial e gastarem montes de dinheiro, o que é pecado. Também, se porventura estando em casa com o marido este tiver uma síncope cardíaca, será de bom tom que a esposa fique recatadamente em casa em vez de pegar no carro e ir com o marido ao hospital, o que aliás levaria a um outro pecado que é o de uma mulher falar com homens que não sejam seus parentes. Deste modo se garante que as ruas serão apenas para os homens, ou para os irmãos simpáticos que levem as irmãs a viajar nas avenidas do centro da cidade, à noite, para poderem trocar papelinhos com os rapazes que passam nos outros carros, com vista a futuros namoros. Há lá coisa mais bonita do que ver montes de rapazes jovens a disparar à desfilada pelas avenidas, com as cabeças de fora, uma mão esticada para apanhar os papelinhos dirigidos às irmãs? Haverá lá maior exercício de amor fraternal? Como poderemos abandonar esta tradição que reforça os laços entre os membros familiares da nossa sociedade? E como poderão os meninos, por exemplo, aprender os palavrões do pai, se este não conduzir sempre o carro? Como poderão depois os meninos serem adultos responsáveis sem esta tradição de conhecimento oral? Por esta razão, concluiu o clérigo, como os homens são um pouco brutos a conduzir e apesar dos amplos espaços do país há mortos em barda nas estradas, este sábio disse que o melhor para garantir a boa harmonia social e evitar lutos escusados, será proibir para sempre a condução automóvel e a importação de carros (excepto quando nos dermos a construí-los para os vender aos infiéis estrangeiros) e obrigar todos os cidadãos a andar de burro, com a excepção das famílias reais, que deverão adoptar o cavalo ou abraçar o camelo. O Ministro dos Negócios Estrangeiros do Califado da Pedra e do Petróleo, na sequência desta homilia, contactou já o Potentado da Paelha, a Democracia da Moussaka e a República Democrática dos Nabos para proceder à importação de burros. Na República dos Nabos este inesperado acontecimento levou já o governo a congratular-se com as suas medidas de gestão, pois burros é o que terão mais para exportar e será uma mercadoria em crescente produção assim que se implementarem as novas reformas no sistema de ensino.

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