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segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

fonte: sol.sapo.pt
O Charco do Milho continua a dar-nos surpreendentes revoluções filosóficas e sociais. Como por lá o dinheiro é pouco e poderá mesmo não chegar até ao fim do ano (do lado de cá do mar os nabos enfrentam o mesmo exacto problema) foi decidido, para bem das contas públicas e défice orçamental, mudar algumas datas no calendário social, religioso e fiscal para que o dinheiro chegue, mesmo se à justa, até ao fim do ano e os balanços de deve e haver batam certo, sendo que no eficientíssimo Charco estes ainda se fazem em agenda de merceeiro e com lápis vermelho e azul, cuja ponta se põe a funcionar pelo imortal processo da lambidela. Ora como existem vários calendários, cada um para sua comunidade no Charco e como cada calendário tem vários feriados, para não ofender as susceptibilidades religiosas de ninguém, e porque a maioria é a da religião das cruzes e cruzamentos, foi deliberado em reunião parlamentar que seria sobre estes que incidira a alteração das datas, os outros ficariam a ver navios nos seus habituais locais na folhinha. Mas como o pessoal dos cruzamentos é também muito festeiro, como se pode ver nos aglomerados de celebrantes em frente às portas de supermercados e mercearias sempre que se anuncia a chegada de raro carrego de óleo ou de margarina mesmo que feita a martelo, e que acaba por receber sempre de braços abertos os polícias e soldados que não hajam sido inicialmente convidados para a balbúrdia mas apareçam para dar o seu contributo ao caos geral, tem no seu calendário uma enorme quantidade de feriados e dias santos. Ora a possibilidade de mudar as datas de todos eles daria uma enorme confusão que paralisaria ainda mais o já paralisado Charco e poria a Grande Revolução em marcha à ré, já que p’rá frente deixou de andar há muito tempo, até os caracóis já a ultrapassaram. Deste modo fez-se a lista de feriados e dias santos, por ordem alfabética, e levou-se a plenário para votação. O feriado que congregou maior número de votos foi o Natal já que todos estão ansiosos por receber o eventual quimérico subsídio com que possam pagar os calotes no merceeiro e o fiado na padaria, já que para calar os miúdos que berram desde o ano passado pois querem a nova Playstation, não será possível, o eventual, hipotético subsídio não chega p’ra tanto. Uma vez escolhido o Natal como eleito para alteração e exterminados todos os outros feriados nacionais para agradar à Tripeça e aos homens de negócios da República Federal das Batatas, concluiu-se que, para obedecer ao espírito popular da Revolução, o soberano povo teria de ser consultado sobre as novas datas. Só que uma inspecção aos cofres revelou não haver dinheiro para comprar o papel para os boletins de voto e ainda menos para encomendar as urnas, nem que estas fossem o modelo económico fornecido pelas funerárias locais e com desconto por ser encomenda de muitas unidades. O novo Grande Líder decidiu então ir até ao jardim do Palácio Presidencial interrogar todos os pássaros, na esperança e de algum deles poder ser o Querido Líder já aviado por uma das funerárias em causa. Mas desta vez o avatar alado do Querido Líder não estava lá para iluminar o Grande Líder na transcendente matéria da mudança da data do Natal. Preocupado, o Grande Líder sentou-se a fumar uma boa dose de ganza de 1ª categoria especial para chefes de estado, esperando que a moca assim apanhada lhe revelasse a solução. De madrugada entrou pelo quarto do seu Ministro da Economia – valeu estar ainda co’uma g’anda moca e nem percebeu que a garina descascada na cama do ministro era a sua própria esposa – e declarou que a data do Natal seria decidida por sufrágio directo e universal. O ministro, habituado a estas interrupções, só disse, pianinho, enquanto empurrava discretamente a companheira para debaixo da cama “camarada presidente, não há dinheiro p’ra isso”. “Mas quem te disse que estou a falar de eleições?” havia qualquer coisa naquela tímida garina, onde é que já a vira antes? “Vamos decidir por Raspadinha. O povo não passa a vida a raspar para ver se lhe calha algum? Pois desta, em vez de rasparem p’rós cobres, raspam para p’ró jackpot da data. A que tiver mais raspas é escolhida e os que rasparem três vezes ganham um perú de Natal, que te parece?” Ao ministro pareceu bem pois não estava em posição de regatear e porque uns cálculos por alto, considerando o imposto que todos os jogadores pagam por se rasparem, sugeriam que talvez se juntasse q.b. para tapar os buracos do Palácio. Saudamos desde já esta iniciativa de democracia directa e ao consumidor, esperando que a moda pegue para que possamos demitir uns quantos maduros e ainda ganharmos sonantes prémios de consolação. Está na altura do mundo pôr os olhos no Charco do Milho, que provou sem espinhas que de facto o Natal é quando um homem quiser… no caso, o Grande Líder.
fonte: publico.pt
 

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