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| fonte: sol.sapo.pt |
O Charco do Milho continua a
dar-nos surpreendentes revoluções filosóficas e sociais. Como por lá o dinheiro
é pouco e poderá mesmo não chegar até ao fim do ano (do lado de cá do mar os
nabos enfrentam o mesmo exacto problema) foi decidido, para bem das contas
públicas e défice orçamental, mudar algumas datas no calendário social, religioso
e fiscal para que o dinheiro chegue, mesmo se à justa, até ao fim do ano e os
balanços de deve e haver batam certo, sendo que no eficientíssimo Charco estes
ainda se fazem em agenda de merceeiro e com lápis vermelho e azul, cuja ponta
se põe a funcionar pelo imortal processo da lambidela. Ora como existem vários
calendários, cada um para sua comunidade no Charco e como cada calendário tem
vários feriados, para não ofender as susceptibilidades religiosas de ninguém, e
porque a maioria é a da religião das cruzes e cruzamentos, foi deliberado em
reunião parlamentar que seria sobre estes que incidira a alteração das datas,
os outros ficariam a ver navios nos seus habituais locais na folhinha. Mas como
o pessoal dos cruzamentos é também muito festeiro, como se pode ver nos
aglomerados de celebrantes em frente às portas de supermercados e mercearias
sempre que se anuncia a chegada de raro carrego de óleo ou de margarina mesmo
que feita a martelo, e que acaba por receber sempre de braços abertos os
polícias e soldados que não hajam sido inicialmente convidados para a balbúrdia
mas apareçam para dar o seu contributo ao caos geral, tem no seu calendário uma
enorme quantidade de feriados e dias santos. Ora a possibilidade de mudar as
datas de todos eles daria uma enorme confusão que paralisaria ainda mais o já
paralisado Charco e poria a Grande Revolução em marcha à ré, já que p’rá frente
deixou de andar há muito tempo, até os caracóis já a ultrapassaram. Deste modo
fez-se a lista de feriados e dias santos, por ordem alfabética, e levou-se a
plenário para votação. O feriado que congregou maior número de votos foi o
Natal já que todos estão ansiosos por receber o eventual quimérico subsídio com
que possam pagar os calotes no merceeiro e o fiado na padaria, já que para calar
os miúdos que berram desde o ano passado pois querem a nova
Playstation, não será possível, o
eventual, hipotético subsídio não chega p’ra tanto. Uma vez escolhido o Natal
como eleito para alteração e exterminados todos os outros feriados nacionais
para agradar à Tripeça e aos homens de negócios da República Federal das
Batatas, concluiu-se que, para obedecer ao espírito popular da Revolução, o
soberano povo teria de ser consultado sobre as novas datas. Só que uma
inspecção aos cofres revelou não haver dinheiro para comprar o papel para os
boletins de voto e ainda menos para encomendar as urnas, nem que estas fossem o
modelo económico fornecido pelas funerárias locais e com desconto por ser
encomenda de muitas unidades. O novo Grande Líder decidiu então ir até ao
jardim do Palácio Presidencial interrogar todos os pássaros, na esperança e de
algum deles poder ser o Querido Líder já aviado por uma das funerárias em
causa. Mas desta vez o avatar alado do Querido Líder não estava lá para
iluminar o Grande Líder na transcendente matéria da mudança da data do Natal.
Preocupado, o Grande Líder sentou-se a fumar uma boa dose de ganza de 1ª
categoria especial para chefes de estado, esperando que a moca assim apanhada
lhe revelasse a solução. De madrugada entrou pelo quarto do seu Ministro da
Economia – valeu estar ainda co’uma g’anda moca e nem percebeu que a garina
descascada na cama do ministro era a sua própria esposa – e declarou que a data
do Natal seria decidida por sufrágio directo e universal. O ministro, habituado
a estas interrupções, só disse, pianinho, enquanto empurrava discretamente a
companheira para debaixo da cama “camarada presidente, não há dinheiro p’ra
isso”. “Mas quem te disse que estou a falar de eleições?” havia qualquer coisa
naquela tímida garina, onde é que já a vira antes? “Vamos decidir por
Raspadinha. O povo não passa a vida a raspar para ver se lhe calha algum? Pois
desta, em vez de rasparem p’rós cobres, raspam para p’ró jackpot da data. A que
tiver mais raspas é escolhida e os que rasparem três vezes ganham um perú de
Natal, que te parece?” Ao ministro pareceu bem pois não estava em posição de
regatear e porque uns cálculos por alto, considerando o imposto que todos os
jogadores pagam por se rasparem, sugeriam que talvez se juntasse q.b. para
tapar os buracos do Palácio. Saudamos desde já esta iniciativa de democracia
directa e ao consumidor, esperando que a moda pegue para que possamos demitir uns
quantos maduros e ainda ganharmos sonantes prémios de consolação. Está na
altura do mundo pôr os olhos no Charco do Milho, que provou sem espinhas que de
facto o Natal é quando um homem quiser… no caso, o Grande Líder.

fonte: publico.pt
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