Os Queixinhas Chegaram à Bolsa (à sua e à
minha)
Os mercados foram recentemente
invadidos por bandos de queixinhas, para grande desconforto das vendedeiras do
peixe e dos legumes, que já começaram a arrear a giga e estão a arregaçar as
mangas para uma valente peixeirada. O tumulto deve-se não apenas ao facto da
Micas da Faneca andar numas relações extra-conjugais com o home da Maria da Sardinha e o Tó dos Pêssegos andar a roubar nas
facturas do Zé das Costeletas mas, e acima de tudo, pela promessa que o Chefe
Paulo fizera de ir baixar o IVA nas vassouras e na água para lavar as bancadas.
Só que o IVA não baixou e até há ameaços de que vá aumentar, taxando estes
vitais produtos de limpeza do mercado como artigos ainda mais luxuosos que os
de luxo. Já se sabia que a comida é um bem de luxo, e como tal assim taxado –
pois só consegue arranjá-la quem ainda tem o luxo de possuir muitos carcanhóis
no bolso, os outros ficam a vê-las nas montras, tal como aos relógios, roupas e
outros acessórios – mas que os produtos de limpeza fossem considerados de luxo
precisamente num mercado, que tem de cumprir as esterilizantes recomendações da
ASAE… O Manel do Tinto, comerciante de carrascão e aguardente a martelo, tentou
acalmar os ânimos lembrando que o Chefe Paulo sempre se atrapalhou com palavras
grandes, lembrassem-se só da barafunda que fora a questão do irrevogável fecho
do mercado, mas ninguém o ouviu. O Chefe Paulo teve de se trancar à pressa no
gabinete da Direcção e neste momento encontram-se cá fora todos os comerciantes
com banca no mercado, agitadíssimos, a proferir apupos, assobios e ameaças e
também a dar manguitos às janelas sempre que os cabelinhos do Chefe Paulo
aparecem no vidro. O Manel do Tinto, muito seguro de si e das suas convicções
pacifistas, anda a fazer um negocião a vender penalties e copos de três, que
isto duma pessoa ir p’ra uma manif faz sede. Para tentar proteger o chefe,
alguns membros da Direcção vieram dar o corpo ao manifesto e queixar-se que a
culpa não era do Chefe mas dos senhores estrangeiros que agora são donos do
mercado, eles é que não deixaram baixar o IVA das vassouras e da água das
limpezas. Também se queixaram de muitas outras coisas, como os senhores em questão
teimarem no corte das rendas da electricidade e dos cutelos eléctricos do talho
e que se não houver cortes, cortam eles a dita cuja e fica tudo às escuras, de
que os vendedores e os fregueses do mercado não compreendem esta nova gestão e
tentam sempre arrear na Direcção, que coitada não tem culpa nenhuma, que os
fregueses não querem ver que estas novas medidas são para seu bem, para não
desatarem a comprar à bruta e viverem acima das suas possibilidades, e depois
começaram a queixar-se das canalhices que os outros faziam para ficarem com o
cargo mais bem pago na Direcção do mercado e por aí fora, tal e qual como
queixinhas do infantário. A coisa pegou com a Micas Faneca, que lhes vendeu o
peixe todo a metade do preço (não faz mal porque ela recupera o lucro roubando
no peso e aumentando o preço para os outros clientes) mas a Maria das
Sardinhas, para contrariar a amásia do marido, voltou-se para o queixinhas que
lhe pedia peixe sem IVA e fez-lhe um Bordalo: “Queres fiado, toma!”. Já a Lecas
Florista, fina com’ó oiro, fez-se de surda e respondeu à pedinchice com “oh,
meu filho, nã te oiço. Disseste qu’as eleições eram quando?” O Chefe Paulo,
pelo sim, pelo não, continua trancado na casa de banho, aproveitando para
desenvolver a sua cultura geral e linguística com os dísticos que tão
castiçamente costumam decorar estes locais de recolhimento.


Sem comentários:
Enviar um comentário