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sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Os mercados foram recentemente invadidos por bandos de queixinhas, para grande desconforto das vendedeiras do peixe e dos legumes, que já começaram a arrear a giga e estão a arregaçar as mangas para uma valente peixeirada. O tumulto deve-se não apenas ao facto da Micas da Faneca andar numas relações extra-conjugais com o home da Maria da Sardinha e o Tó dos Pêssegos andar a roubar nas facturas do Zé das Costeletas mas, e acima de tudo, pela promessa que o Chefe Paulo fizera de ir baixar o IVA nas vassouras e na água para lavar as bancadas. Só que o IVA não baixou e até há ameaços de que vá aumentar, taxando estes vitais produtos de limpeza do mercado como artigos ainda mais luxuosos que os de luxo. Já se sabia que a comida é um bem de luxo, e como tal assim taxado – pois só consegue arranjá-la quem ainda tem o luxo de possuir muitos carcanhóis no bolso, os outros ficam a vê-las nas montras, tal como aos relógios, roupas e outros acessórios – mas que os produtos de limpeza fossem considerados de luxo precisamente num mercado, que tem de cumprir as esterilizantes recomendações da ASAE… O Manel do Tinto, comerciante de carrascão e aguardente a martelo, tentou acalmar os ânimos lembrando que o Chefe Paulo sempre se atrapalhou com palavras grandes, lembrassem-se só da barafunda que fora a questão do irrevogável fecho do mercado, mas ninguém o ouviu. O Chefe Paulo teve de se trancar à pressa no gabinete da Direcção e neste momento encontram-se cá fora todos os comerciantes com banca no mercado, agitadíssimos, a proferir apupos, assobios e ameaças e também a dar manguitos às janelas sempre que os cabelinhos do Chefe Paulo aparecem no vidro. O Manel do Tinto, muito seguro de si e das suas convicções pacifistas, anda a fazer um negocião a vender penalties e copos de três, que isto duma pessoa ir p’ra uma manif faz sede. Para tentar proteger o chefe, alguns membros da Direcção vieram dar o corpo ao manifesto e queixar-se que a culpa não era do Chefe mas dos senhores estrangeiros que agora são donos do mercado, eles é que não deixaram baixar o IVA das vassouras e da água das limpezas. Também se queixaram de muitas outras coisas, como os senhores em questão teimarem no corte das rendas da electricidade e dos cutelos eléctricos do talho e que se não houver cortes, cortam eles a dita cuja e fica tudo às escuras, de que os vendedores e os fregueses do mercado não compreendem esta nova gestão e tentam sempre arrear na Direcção, que coitada não tem culpa nenhuma, que os fregueses não querem ver que estas novas medidas são para seu bem, para não desatarem a comprar à bruta e viverem acima das suas possibilidades, e depois começaram a queixar-se das canalhices que os outros faziam para ficarem com o cargo mais bem pago na Direcção do mercado e por aí fora, tal e qual como queixinhas do infantário. A coisa pegou com a Micas Faneca, que lhes vendeu o peixe todo a metade do preço (não faz mal porque ela recupera o lucro roubando no peso e aumentando o preço para os outros clientes) mas a Maria das Sardinhas, para contrariar a amásia do marido, voltou-se para o queixinhas que lhe pedia peixe sem IVA e fez-lhe um Bordalo: “Queres fiado, toma!”. Já a Lecas Florista, fina com’ó oiro, fez-se de surda e respondeu à pedinchice com “oh, meu filho, nã te oiço. Disseste qu’as eleições eram quando?” O Chefe Paulo, pelo sim, pelo não, continua trancado na casa de banho, aproveitando para desenvolver a sua cultura geral e linguística com os dísticos que tão castiçamente costumam decorar estes locais de recolhimento.


 

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