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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Também na União das Hortaliças os dicionários estão a ser revistos, ou mais exactamente, as directivas que definem o que é um dicionário e quais as palavras que deve conter para cada uma das 27 línguas oficiais (e mais algumas oficiosas, sem contar as dos escritos das casas de banho). E isto por causa da inovação que a república Federal das Batatas e real soberana dos 27 da União está a introduzir no princípio da livre circulação de pessoas e bens, que é suposto ser um dos pilares da União. Ou pelo menos assim foi apresentado aos seus distraídos cidadãos, quando foi preciso levá-los a aprovar mais ou menos à força certos tratados. Assim, em resultado do feliz casamento entre os dois maiores partidos desta República, que pode agora atirar foguetes pois já tem governo, os não-batanteses vão passar a pagar imposto por circularem nas auto-estradas desta República que, como se sabe são verdadeiramente livres pois não se paga por lá andar e pode-se acelerar até Mac 5 que não há problema, excepto para os outros automobilistas que podem ser amassados pelo acelera sem sequer perceberem o que os atingiu. Assim, à entrada das auto-estradas da República Federal das Batatas vão estar além dos habituais separadores e faixas de aceleração, cabines tipo bilheteira onde os automobilistas terão de parar para mostrarem os documentos, como em qualquer normal e já quase esquecida fronteira dos velhos tempos da (des)União. Os cidadãos da União que pertençam ao clube de 1ª (vizinhos ideológicos e raciais dos batatenses) pagarão taxa reduzida de 2%, os cidadãos de 2ª da União taxa moderada de 10%, os cidadãos de 3ª (países do Sul ainda não afundados pela Tripeça) taxa de 40%, os de 4ª (filhos dos países do Sul para sempre endividados à tripeça) taxa de 70% e proibição de circular nas faixas de alta velocidade, os de 5ª categoria (países do Leste pobre) taxa de 90% e só poderão circular na berma; finalmente quaisquer infra-humanos exteriores à União pagarão taxa de 120% e serão terminantemente proibidos de entrar na auto-estrada, sendo varridos para as estradas secundárias para não conspurcarem o digno asfalto batatense, com excepção para os cidadãos do Império do Arroz, da República dos Hambúrgueres e do Império dos ursos, mas estes últimos apenas e só após prova de sólida fortuna pessoal e empresarial (aceitam-se empresas de todo o tipo incluindo a de tráfico de pessoas e assassínio a soldo, desde que a conta bancária tenha pelo menos 6 zeros à frente da unidade e um 5 na 7ª casa). Esta medida, que teria feito as alegrias do Batata Podre se dela se houvesse lembrado, foi já saudada com grandes manifestações de júbilo dos batatenses que agitavam bandeirinhas laranja com os nomes de Angie e entoavam não o wenn alle untreu werden mas um simpático estrangeiros vão circular para as vossas estradas cantando em ritmada barcarola. Houve naturalmente protestos das várias comunidades de emigrantes no país, calados à pedrada pelos bons rapazes da cruz de pernas partidas, pois agora para irem para os empregos têm de perder tempo nas filas dos controlos de passaportes e pagar as taxas tal e qual como se fossem apenas turistas, mesmo os emigrantes que já nasceram nesta República visto que pela lei local só é batatense quem nasceu de pais batatenses. Irritados com este “atentado aos direitos dos seus turistas” o Império do Chá, casmurra ilha da União com a mania das independências e que nunca foi muito bem com as batatas, decidiu também no mesmo espírito ecuménico que alimenta o novo governo batatense, promulgar leis no sentido de impedir a entrada de estrangeiros na ilha, tendo para tal destacado patrulhas de Defesa Territorial e Anti-Aérea, para abater a tiro todo e qualquer estrangeiro sem passaporte que apareça pela costa mesmo que seja também membro da União. Foram aliás já distribuídos aos voluntários civis destas patrulhas folhetos com descrições dos vários tipos de cidadãos da União, surgindo em grande destaque as imagens representativas de membros do Povo das Carroças (com lenços, castanholas, carroças coloridas e homens barbudos de chapéus pretos), do Condado dos Morcegos (com os seus habitantes agarrados a estacas e a pregar outros habitantes semi-transfigurados em morcegos) e da Democracia do Canto Coral (em que os seus habitantes aparecem em trajes muito garridos e abraçados uns aos outros a cantar em coro). A República Federal das Batatas apresentou já um protesto ao Conselho dos Direitos Humanos da União, não só porque o Império do Chá teve a ideia de colocar os batatenses entre os estrangeiros a abater como, ainda pior, os apresentou segurando grandes canecas de meio litro a transbordar de cerveja. Os outros países da União não apresentaram queixa porque nem têm direito a isso. Deste modo os dicionários da União estabelecem a partir de hoje que “livre circulação de pessoas e bens” significa “livre circulação de mercadorias” porque as pessoas há muito que não contam neste totobola.
 

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