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segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Na capital Cambalhota do Protectorado dos Pés Para o Ar passou a partir de hoje a estar em vigor a nova chave de classificação das direcções de empresas públicas, e foi já feita a sua aplicação-piloto à Companhia de Carroças, Charretes e Outros Atrelados Muares. Com efeito a direcção desta Companhia, serviço público de transportes colectivos ligeiros e pesados – sendo que os passageiros pesados e/ou mercadoria acima do peso e formato regulamentares pagam taxa adicional – foi hoje demitida em bloco numa emotiva cerimónia de demissão, em que o Ministro da tutela fez rasgados elogios aos demitidos. A direcção foi demitida, nas palavras do Ministro, porque fora especialmente eficiente a gerir as contas e os activos imobiliários da empresa, melhorando os lucros, apesar de não ter despedido trabalhadores nem reduzido os seus salários e até ter implementado um sistema de reparações periódicas das viaturas e alimentação às bestas de tracção, sem desequilibrar os orçamentos pois embora tivesse ocorrido um aumento dos gastos, este mais do que fora compensado com as receitas por os utentes terem passado a viajar mais nos Transportes Muares, confiantes na melhoria dos serviços e estado luzidio das alimárias. Mas segundo as exigências internacionais, tinha agora de se demitir todas as equipas que fossem competentes e substituí-las pelas mais incompetentes que se pudessem encontrar disponíveis. Apesar de no Protectorado dos Pés Para o Ar, os imbecis serem agora muito difíceis de contratar a baixo custo pois têm colocação mal saem da escola primária, o Ministro dos Transportes expressou a sua esperança em que alguns idiotas profissionais se candidatem aos cargos agora devolutos pois trata-se, disse, de um imperativo nacional, até para agradar aos mercados. Não ficou explicado se seriam os mercados de hortaliças, de peixe ou da carne de muares, ou de produtos exóticos made in Aqui ao Lado, mas correspondendo ao patriótico apelo já se candidataram várias equipas de pescadores à linha que só apanham botas e sacos de plástico, jogadores com botas a menos apanhadas pelos referidos pescadores, apanhadores de papéis e beatas, e uma equipa de ladrões de porta-chaves conhecidos por “os skates da Linha” pois fogem sempre em cima de skates, não tendo até agora sido capturados pelas autoridades apesar de todos saberem onde moram, namoram e vão aos copos. Espera-se que a futura equipa de ignorantes financeiros seja lesta a levar à falência a Companhia de Carroças, Charretes e Outros Atrelados Muares, para alegria dos mercados e apostadores no afundamento dos ratings, incluindo os das cuecas dos pedolenses, conseguindo assim a extinção do último e perniciosíssimo serviço público do mundo. A extinção do último serviço público do mundo inaugurará uma nova época de prosperidade mundial, embora apenas só para alguns. Os outros podem remeter-se à miséria medieva pois são apenas trabalhadores, logo desnecessários pois quem aduba a economia são os especialistas em sapos tóxicos, consultoria financeira sobre offshores e contabilidade criativa.
 

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