Deus É
Economista! (Agora
Percebem-se as Exóticas Contabilidades do Banco dos Santos)
O nosso enviado no Paraíso – não,
não é o Dante Aghlieri do Inferno do Brown – acaba de nos enviar uma notícia-sensação
que poderá explicar muitos mistérios do Banco dos Santos, instituição
financeira da cidade sagrada dos circos e das cruzes, envolvida em secretos
escândalos vários e que teve a guiá-la lideres religiosos perseguidos por
víboras e corvos, mas cândidos o bastante para acreditar na irrepreensível
conduta dos seus clientes, incluindo os padrinhos da organização de caridade
chamada Máfia que, como o nome indica, são devotos homens de religião pois de
outro modo nunca poderiam ser padrinhos. O nosso enviado conseguiu apurar, após
horas a passar a graxas nas asas dos anjos que Deus afinal é economista. E as
provas estão por toda a parte, convencendo até ateus. Notícia que é um alívio
para os milhões gementes sob a aplicação das teorias dos mercados racionais – o
que de facto só por milagre se verifica, sendo a ganância tudo menos uma
atitude racional e que não raro rebenta na cara do ganancioso – e que deste
modo podem acalentar o sonho de voltar a viver decentemente e sair da miséria,
lá por alturas do Olam Ha-Bav, que é
como quem diz quando as galinhas tiverem dentes. Uma das provas vem da
colapsante economia da República dos Nabos, integrada numa União das Hortaliças
à beira da deflacção. O milagre, que põe a um canto os prodígios etílicos do
Mar da Galileia, ocorreu assim que o nabal mudou de ministro da Economia, o que
nos faz supor ser o jovem um enviado dos céus. O milagre consubstancia-se na
subida das exportações; o facto das importações também subirem não conta para o
caso, assim como também não conta p’ró totobola que todos os demais indicadores
económicos continuem a afundar, só que não tão depressa quanto no ano anterior,
a começar no PIB. Miraculosamente, isso é sinal incontestado de que o nabal
regressou ao crescimento da parra, apesar de não dar uva. Reforçando o milagre,
e deste modo pondo o ministro mais perto da promoção a santo, em conformidade
com os exigentes critérios de admissão a esse cargo, mais de 16% dos nabos anda
de rama ao alto, que é como quem diz, está desempregado, dos quais cerca de
meio milhão dos ditos (os não nabos deram às de vila Diogo e cavaram do nabal)
já perderam ou nunca tiveram subsídio de desemprego, mas mesmo assim,
sustentados sabe-se lá por qual discreta chuva de maná no deserto, ainda não
morreram de fome; milagre esse que, tal como o do maná, se repete todos os dias
até os milagrados visitarem as morgues com carácter definitivo (a modos qu’uma
versão upgraded do que sucedeu às
tribos no deserto quando protestaram por ser a ceia sempre igual e ficarem sem ela
a partir daí pois o fabricante era um bocadinho temperamental). Em paralelo o
nabal vive um interessante fenómeno, qu’é assim uma espécie de milagre de 2ª
divisão distrital, no qual cerca de 28% dos seus habitantes terem deixado de
meter o dente em alimentos essenciais por não os poderem comprar, imaginem
agora como seria se não se estivesse em pleno milagre económico! Deve ser essa
também a razão de, apesar dos impostos terem levado rama, grelos e olhos aos
nabos, no tal “aumento brutal”, e as regas e adubos públicos tenham sido
cortadas para níveis record, ainda assim a dívida dos nabos aos hortelões
estrangeiros haja subido mais de 40% face ao que deviam antes do nabal ser
declarado falido e cheio de bicho. Infelizmente, ao que parece, se o Altíssimo é
economista, os seus anjos e santos não serão lá grande coisa a Aritmética dado
que agora em vez dum Orçamento Anual, se têm vários Rectificativos, que
procuram corrigir os erros das previsões dos anteriores, pois a realidade
encarrega-se de furar as expectativas. O que por sua vez prova que os santos
não darão meia p’rá caixa em profecia mas são muito optimistas. Esse optimismo
talvez explique porque os santos, que no nabal reencarnaram em avatares de
ministros, continuem a declarar que as coisas no nabal estão cada vez melhores
e em consolidação, apesar dos novos cortes já programados e também ao facto de
que depois do fim da crise, que vai acontecer para o ano – e não se pode
duvidar da palavra dos santos – os nabos terão de continuar a apertar a cintura
das ramas ainda com mais força do que agora. Se depois disto tudo os nabos
ainda sobreviverem, é com efeito um milagre e o Paraíso em que estará o nabal
parecerá sem dúvida muito semelhante ao Inferno. E isso poderá justificar o
rumor do que corre por entre o rufe-rufe das asas celestiais de que o Big Boss
enviou uma missiva secreta aos do Outro Lado, com vista a contratar anjos
caídos para vigiarem o nabal nos cem anos mais próximos.

























